
A inteligência artificial não vai substituir o professor, mas está mudando o que se espera dele. Com alunos cercados de informação e ferramentas que escrevem, resumem e resolvem problemas em segundos, o professor deixa de ser quem transmite conteúdo e passa a ser quem conduz o diálogo, desenvolve o pensamento crítico e ensina a usar a IA com ética. Essa é a principal conclusão do episódio especial de Dia do Professor do VanzoliniCast, com aIlíada de Castro, Professora/Doutora na FCAV, e Fernanda Zerbini, Professora de Comunicação.
O aluno de hoje recebe informação em excesso, tem dificuldade de manter a atenção e espera aplicação imediata do que aprende. Para a professora Ilíada, isso começa por um princípio da comunicação: o receptor é a pessoa mais importante do processo. Se o aluno mudou, a forma de ensinar precisa mudar junto.
Esse imediatismo, segundo ela, atrapalha porque a aprendizagem é um processo e exige disciplina diária. Ainda assim, bons professores conseguem contornar o problema pelo jeito de conduzir a aula, e isso independe de tecnologia.
Porque o aluno aprende melhor quando vive a experiência antes de receber o conceito. A professora lembra de uma aula de frações em que a professora levou uma barra de chocolate e perguntou quem queria 1/2, 1/4 ou 1/36. Os mais apressados escolheram 1/36 achando que era mais. Quem pediu 1/2 ganhou metade da barra, e a turma inteira entendeu fração na hora.
Ela aplica o mesmo princípio hoje. Para introduzir comunicação não verbal, pede que os alunos formem uma fila por data de nascimento sem falar. A partir dessa vivência, a turma identifica os problemas de comunicação que surgiram e o conteúdo nasce da experiência. Para ela, o professor que só transmite informação está obsoleto.
O diálogo. A professora Ilíada retoma Paulo Freire e a ideia de educação dialógica: o aluno não chega vazio, traz experiências e deve ser protagonista do próprio conhecimento. Ela lembra que, na origem da palavra, “dia” indica separação e “logos” indica conhecimento. Duas pessoas partem de pontos diferentes, se escutam e produzem juntas um conhecimento novo.
Isso ganha peso porque, segundo ela, os alunos hoje escrevem bastante, mas falam menos. A comunicação oral permite ver a reação do outro, perceber o silêncio e receber feedback imediato. Por isso o professor precisa ser um bom leitor do não verbal e estimular a fala em sala.
Outro papel que cresceu é o de curadoria. Diante de tantas opções de livros, cursos e conteúdos, o aluno precisa de alguém que indique o que vale a pena e por quê, o que exige do professor atualização constante.
A IA funciona melhor como parceira de um processo de diálogo, não como atalho para a resposta pronta. A professora Ilíada descreve três usos práticos:
No planejamento. Ela escreve uma proposta de aula, pede para a IA sugerir mudanças, questiona, pede exemplos e refaz. O tempo economizado volta para o que importa: a atenção direta aos alunos.
Em ciclos de aprendizagem. Num curso online, ela alterna uma hora de aula com uma tarefa em que os alunos conversam com uma IA preparada especialmente para o curso. Depois, trazem as sugestões da IA para discutir com ela e decidir o que priorizar. Segundo a professora, o processo de aprendizagem acelera de forma impressionante porque o aluno dialoga com a IA, depois com o professor, e de novo com a IA.
Na leitura crítica. Nas aulas de comunicação escrita para pós-graduação, ela deixou de ensinar pontuação e síntese e passou a ensinar os alunos a avaliar o texto da IA: onde ele generaliza, onde falta fonte, onde falta humanização. E a escrever bons prompts. Um exemplo: a IA não estrutura um e-mail em pirâmide invertida (o mais importante primeiro) se isso não for pedido explicitamente.
Ela faz uma ressalva importante: essa abordagem vale para adultos. Na educação básica, a criança ainda precisa dominar os fundamentos, como saber o que é substantivo e adjetivo, para não ser enganada pela IA.
A professora conversa abertamente. Diz ao aluno que o texto está muito próximo da linguagem da IA e pede uma versão própria, mesmo com erros, porque precisa conhecer a competência real dele. Na maioria das vezes, o aluno admite o uso.
Para ela, copiar da IA é a velha “cola” em versão sofisticada, e a ética é a grande questão do nosso século. Por isso defende que o tema faça parte do currículo desde os primeiros anos da escola.
Porque a IA tende a entregar uma resposta única, e esse tipo de pensamento empobrece. A professora compara com a linguagem publicitária, que oferece uma única solução para cada problema. O papel do professor é levar o aluno a fazer várias perguntas, trabalhar com respostas diferentes e só então decidir qual é a melhor. Como dizia Paulo Freire, a pergunta é mais importante que a resposta.
Para fechar a conversa, a professora Ilíada retoma o filósofo francês Edgar Morin, falecido em maio de 2026 aos 104 anos, autor de Os sete saberes necessários à educação do futuro. Ela relacionou cada saber à competência que ele desenvolve no aluno:
| Saber proposto por Morin | Competência desenvolvida |
| Reconhecer que todo conhecimento pode conter erros, ilusões e vieses | Pensamento crítico e capacidade de questionar |
| Relacionar e contextualizar informações para compreender o todo | Visão sistêmica e capacidade de fazer conexões |
| Compreender o ser humano nas dimensões biológica, psicológica, social, histórica e cultural | Autoconhecimento, empatia e compreensão do outro |
| Entender que fazemos parte de uma sociedade planetária | Responsabilidade social e cidadania |
| Preparar-se para um mundo imprevisível | Flexibilidade, adaptação e resiliência |
| Compreender as perspectivas e os contextos do outro | Escuta, diálogo e convivência |
| Desenvolver uma ética que una indivíduo, sociedade e espécie | Responsabilidade, solidariedade e participação cidadã |
A IA vai substituir o professor?
Não. Para a professora Ilíada, o aluno aprende também observando a atitude do professor: como ele lida com o material, como se relaciona com os colegas, como reage aos outros. As crianças, diz ela, se espelham nas pessoas, não na IA. O que muda é a forma de ensinar, que exige mais preparo, mais adaptação e às vezes até cansaço de quem dava a mesma aula havia anos. O que permanece é o professor como liderança, exemplo e mediador do diálogo.
Não. A IA pode apoiar o planejamento e acelerar a aprendizagem, mas o diálogo, a leitura do aluno, a curadoria e o exemplo ético continuam dependendo do professor.
Para planejar aulas mais rápido, criar ciclos em que o aluno consulta a IA e depois discute as respostas com o professor, e ensinar a avaliar criticamente textos gerados por IA.
Conversar abertamente, pedir uma versão própria mesmo com erros e tratar o tema como uma questão de ética e de aprendizagem, não só de punição.
O pensamento crítico: questionar informações, comparar respostas diferentes e decidir com base em análise, e não aceitar a primeira resposta que aparece.
É a proposta de Paulo Freire em que professor e aluno constroem o conhecimento juntos, por meio do diálogo, partindo das experiências que o aluno já traz.