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Desafios na interpretação dos critérios AQUA-HQE™ e como aproveitá-los para elevar suas construções a um novo patamar

Postado em Certificação | 10 de março de 2026 | 7min de leitura
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A certificação AQUA-HQE™ (Alta Qualidade Ambiental), baseada no referencial francês HQE™ e adaptada ao clima, normas e legislações brasileiras pela Fundação Vanzolini, consolidou-se como uma das principais ferramentas de avaliação do desempenho ambiental e da qualidade de vida em edificações.

A abrangência de sua estrutura, que contempla categorias de qualidade ambiental, frequentemente desafia as equipes de projeto a sair do automático, revisitando práticas consolidadas em busca de soluções mais integradas e consistentes para o atendimento aos requisitos da certificação.

Esse movimento de “sair do automático” está fortemente relacionado à visão compartimentada ainda presente nos processos de projeto e obra.

A superação desses desafios exige a adoção de um Processo de Projeto Integrado (PPI), no qual arquitetos, engenheiros, especialistas ambientais e construtores atuam de forma colaborativa desde a concepção.

O consultor de certificação, nesse contexto, deve atuar não como um verificador tardio, mas como um facilitador do processo, auxiliando a equipe a compreender as interconexões entre os alvos e a tomar decisões que otimizem o desempenho global da edificação.

A certificação AQUA-HQE™ não deve ser compreendida apenas como um selo a ser obtido, mas como um referencial orientador, que convida as equipes a procurar novas soluções , almejando sempre a excelência na concepção, construção e operação de edificações sustentáveis.

O planejamento e o monitoramento configuram-se como instrumentos essenciais para materializar essa excelência, resultando em edificações que consomem menos recursos e promovem saúde, conforto e bem-estar ao longo de toda a sua vida útil.

Este artigo identifica os principais pontos de atenção na interpretação dos critérios, com foco nas situações mais recorrentes observadas em auditorias e processos de consultoria, além de propor diretrizes claras para preveni-las, contribuindo para a fluidez do processo de certificação e para resultados plenamente alinhados aos objetivos de sustentabilidade.

A natureza sistêmica do AQUA-HQE™

O conjunto de referenciais AQUA-HQE™ caracteriza-se por estruturar a avaliação do edifício a partir de uma lógica sistêmica e de multicritério, em que o desempenho global decorre do equilíbrio entre as categorias de desempenho ambiental.

A certificação AQUA-HQE™, ao exigir que as equipes saiam do automático, convida justamente à leitura conjunta dos alvos e à compreensão de que as estratégias adotadas para um requisito impactam diretamente nos demais. Por exemplo, uma estratégia focada na redução de consumo de energia (Categoria 4) não pode comprometer o conforto térmico (Categoria 8) ou a qualidade do ar interior (Categoria 13).

Reflexões trazidas pelos referenciais de certificação AQUA-HQE que nos incentivam a “sair do automático”

Reflexão 1: Supervalorizar estratégias “high-tech” e negligenciar estratégias de arquitetura passiva

Observa-se, com frequência, a busca por soluções tecnológicas complexas e onerosas para o atendimento às metas de eficiência energética, enquanto estratégias de arquitetura bioclimáticas (como orientação solar adequada, ventilação cruzada, aproveitamento da inércia térmica e dimensionamento eficiente de proteções solares) acabam sendo tratadas de forma secundária no processo de projeto.

Como “sair do automático”:

  • Simulações Computacionais Dinâmicas: utilizar ferramentas de simulação de consumos de energia e de conforto térmico desde os estudos preliminares, de modo a quantificar o impacto das decisões arquitetônicas e fornecer embasamento técnico para a priorização de estratégias passivas;
  • Análise de Ciclo de Vida (ACV): avaliar o custo-benefício ambiental de soluções tecnológicas complexas em comparação com soluções arquitetônicas mais simples, robustas e duráveis.

Reflexão 2: Interpretação reducionista da “Qualidade do ar interior”

A categoria que trata da Qualidade do Ar Interior envolve outras temáticas, além do atendimento de taxas de renovação de ar da norma ABNT NBR 16401 ou à especificação de filtros de média eficiência. Trata-se de um tema complexo, que envolve fontes de poluição interna (materiais de construção, mobiliário e ou produtos de limpeza), estratégias de descontaminação e sua interface com o sistema de climatização.

Como “sair do automático”:

Atentar-se ao momento de especificar os componentes da edificação, levando em consideração a:

  • Baixa emissão: exigir certificações tipo A+ francesa, Blue Angel ou Declarações Ambientais de Produto (DAP) que comprovem baixa emissão de COVs para todos os materiais de acabamento e mobiliário fixo;
  • Sequência de obra: planejar a instalação de materiais absorvedores (carpetes e forros) após o término das obras “úmidas” e da pintura;
  • Procedimento de descontaminação: definir um protocolo claro para a descontaminação final do ar interior antes da ocupação, com duração e condições de operação dos sistemas.

Leia mais em: Compras sustentáveis: escolha de materiais na certificação AQUA-HQE™ para edifícios em construção

Reflexão 3: A “Relação da Edificação com seu Entorno” não trata apenas da acessibilidade aos meios de transporte

Limitar a análise dessa categoria à existência de transporte público nas proximidades é apenas um dos aspectos a serem verificados. Essa abordagem desconsidera questões essenciais, tais como a integração visual e paisagística da edificação com o bairro, os potenciais impactos gerados aos vizinhos (como ruídos e ofuscamento).

A categoria pressupõe uma avaliação mais ampla da inserção urbana do empreendimento, considerando sua interação com a vizinhança e sua contribuição para a qualidade do ambiente construído.

Como “sair do automático”:

  • Análise do local do empreendimento: realizar um diagnóstico urbano além da avaliação da acessibilidade a transporte. Mapear vistas, gabarito local, perfis de ruído existentes, zonas de sombra projetadas pelo novo edifício e vocações do bairro;
  • Plano de integração na obra: desenvolver um plano específico para minimizar impactos da construção (tráfego de caminhões, poeira e ruído) na vizinhança;
  • Planejamento de fachada ativa: quando possível, incorporar usos complementares (comércio de bairro e ou serviços) no pavimento térreo para vitalizar o espaço público.

Reflexão 4: Concentrar os esforços no ciclo de construção e não dar tanta atenção após a entrega do empreendimento

A manutenção é o pilar que garante a perenidade do desempenho ambiental ao longo de décadas, portanto, é de suma importância a entrega de manuais de manutenção completos ao final da obra.

Como “sair do automático”:

  • Manual do Síndico e do Proprietário: criar um Manual do Síndico, trazendo disposições detalhadas sobre as áreas comuns, sistemas e equipamentos enquanto o Manual do Proprietário traz considerações sobre a unidade habitacional adquirida;
  • Treinamento: realizar treinamentos práticos com a equipe de operação antes da entrega, com registro de presença e conteúdo.

Leia mais em: Novos referenciais AQUA-HQE™: Avaliação de desempenho de edifícios residenciais em operação

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Para mais informações sobre a certificação AQUA-HQE™:

seloaqua@vanzolini.org.br
(11) 3913-7100

Setor comercial e de agendamento:
certific@vanzolini.org.br
(11) 9 6476-1498
(11) 3913-7100

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