Fundação Vanzolini

Capex e Opex em terminal portuário: o que a obra não mostra

30 de outubro de 2026 | 7min de leitura
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Todo projeto de terminal portuário passa, cedo ou tarde, pela mesma pergunta: quanto ele vai custar? A resposta costuma começar pelo que se vê no canteiro, como o cais, o pátio, o pavimento e os guindastes que vão movimentar os contêineres. Faz sentido. É a parte mais concreta do projeto e a que concentra as primeiras decisões.

Só que um terminal não termina quando a obra é entregue. Ele vai operar por décadas, com equipes, manutenção, energia e equipamentos que precisam ser trocados no meio do caminho. Quando se olha o contrato inteiro, a conta muda de tamanho, e muitas vezes a obra deixa de ser a maior parte dela.

O estudo de viabilidade do ITJ01, terminal de contêineres no Porto de Itajaí (SC) que a ANTAQ levou à audiência pública em 2026, é um bom exemplo disso. Ao longo dos 25 anos de contrato, o investimento previsto é de R$ 2,67 bilhões, e o custo de operação chega a R$ 11,51 bilhões (ANTAQ, seção financeira do ITJ01).

Neste artigo, usamos o ITJ01 para entender o que entra em cada uma dessas contas, quais custos costumam passar despercebidos e o que um orçamento precisa registrar para que outra pessoa consiga conferi-lo.

Qual a diferença entre Capex e Opex?

Capex (capital expenditure, ou despesa de capital) é o dinheiro aplicado para implantar, ampliar ou renovar os ativos do terminal, como obras, equipamentos e estudos. Opex (operational expenditure) é o custo de operar e manter esses ativos depois que o terminal entra em funcionamento, como pessoal, manutenção e energia.

A diferença que mais pesa no planejamento é de tempo. O Capex se concentra em poucos anos: na implantação e em momentos pontuais de renovação. O Opex corre todo ano, do primeiro ao último dia do contrato, e acompanha o volume movimentado. Por isso um terminal pode parecer barato de construir e ser caro de manter, e só o fluxo dos 25 anos diz se o negócio fica de pé.

CapexOpex
O que éInvestimento em ativosCusto de operar e manter
Quando ocorreImplantação e renovações pontuaisTodos os anos do contrato
Exemplos no ITJ01Cais, pátios, portêineres, RTGsEquipe própria, mão de obra avulsa, manutenção, energia
Total no ITJ01 (25 anos)R$ 2,67 bilhõesR$ 11,51 bilhões

Valores em preços de abril de 2025, sem as demais obrigações financeiras do contrato.

No ITJ01, para cada real investido para construir e equipar o terminal, mais de quatro vão para operá-lo ao longo do contrato. Somadas as duas contas, a operação responde por cerca de 81% do total. 

O que entra no Capex de um terminal portuário?

A parte previsível do Capex está toda no estudo. Ele inclui a estrutura marítima (defensas e os trilhos dos portêineres, que são os guindastes de cais), o pátio com drenagem, pavimento, rede elétrica e combate a incêndio, e os equipamentos principais: portêineres, RTGs (guindastes de pátio sobre pneus), cavalos mecânicos de pátio e tomadas para contêineres refrigerados. Sobre o custo direto, o estudo soma 5% de engenharia e administração e mais 5% de contingência.

Dois itens merecem atenção justamente porque são fáceis de esquecer.

A renovação dos equipamentos (REPEX)

Um guindaste não aguenta 25 anos de operação intensa. O estudo prevê a reposição dos equipamentos ao longo do contrato, o chamado REPEX, estimado em metade do custo original deles. São R$ 588 milhões, ou 22% de todo o investimento do terminal.

O problema é quando esse dinheiro sai. A implantação se concentra nos nove primeiros anos, e a renovação acontece entre os anos 13 e 21. Um orçamento que termina na entrega da obra não enxerga esse desembolso, e um plano financeiro que não o carrega desde o início vai encontrar um buraco de centenas de milhões no meio do contrato.

Os tributos de importação

Boa parte dos equipamentos portuários vem de fora. Na fase 1 do ITJ01, são R$ 646 milhões em equipamentos importados, sobre os quais incidem R$ 72,4 milhões em tributos. Quando esse valor fica embutido no preço do equipamento, quem revisa a planilha não sabe se ele foi considerado, nem se foi contado duas vezes. Em linha própria, a dúvida desaparece.

O que entra no Opex de um terminal portuário?

O custo de operação do ITJ01 tem três blocos: pessoal, manutenção e utilidades (eletricidade, água e comunicações). A manutenção é calculada como um percentual anual do valor dos ativos: 1,18% para os equipamentos e 0,71% para a infraestrutura civil.

O bloco que mais pesa é o pessoal, e ele se divide em duas partes que se comportam de forma diferente. A equipe própria, de 1.498 pessoas, custa R$ 140,5 milhões por ano na configuração de referência. A mão de obra avulsa, contratada pelo OGMO (órgão gestor de mão de obra), custa mais: R$ 167,53 por TEU movimentado, o que dá R$ 236 milhões por ano no cenário-base de 1,41 milhão de TEU. O TEU é a unidade equivalente a um contêiner de 20 pés.

Como esse custo é cobrado por contêiner, ele acompanha a movimentação. Isso amarra o Opex à projeção de demanda: um erro na movimentação esperada distorce, ao mesmo tempo, a receita e o maior custo de operação do terminal.

Onde o orçamento de Capex costuma errar?

Esquecer a renovação. No ITJ01, seriam 22% do investimento fora da conta. É o erro mais caro.

Usar preço sem fonte nem data-base. O ITJ01 declara todos os valores em preços de abril de 2025 e trabalha em termos reais, sem inflação. Assim, qualquer número da planilha pode ser comparado com outro. Sem essa referência, não há como saber se dois preços estão na mesma base.

Tratar estimativa como preço fechado. O próprio estudo classifica seus números como estimativa de ordem de magnitude. Nessa fase, o orçamento serve para comparar alternativas e testar a viabilidade, não para contratar.

O que evita os três é simples: cada linha da planilha registra quantidade, preço unitário, fonte, data-base e ano previsto de desembolso. Com isso, qualquer pessoa consegue refazer a conta e chegar ao mesmo número.

Para aprofundar

Montar esse tipo de orçamento exige saber de onde vem cada preço e como funcionam as estruturas e os equipamentos de um porto. É isso que o minicurso ao vivo Do Corredor ao Porto: Vale Investir?, da Fundação Vanzolini, cobre numa aula de 3 horas: conceitos de Capex, bases públicas de preços, estruturas e equipamentos portuários e estudos de caso. A data e as condições da próxima turma estão na página do minicurso.

Perguntas frequentes

O que é Capex e Opex?

Capex é o investimento feito para implantar, ampliar ou renovar ativos, como obras e equipamentos. Opex é o custo de operar e manter esses ativos no dia a dia, como pessoal, manutenção e energia.

Qual a diferença entre Capex e Opex?

A principal diferença é o momento em que o dinheiro sai. O Capex se concentra na implantação e em renovações pontuais, e o Opex se repete todos os anos enquanto o ativo estiver em operação. Em projetos de longo prazo, o Opex pode superar o Capex com folga: no ITJ01, é mais de quatro vezes maior.

O que entra no Capex de um porto?

Estrutura marítima, pátios e infraestrutura, equipamentos, engenharia e administração, contingência e tributos sobre equipamentos importados. A renovação dos equipamentos ao longo do contrato também entra no Capex, mesmo acontecendo anos depois da obra.

O que é REPEX?

É o investimento na reposição de equipamentos ao longo do contrato. Faz parte do Capex, mas costuma ficar fora de orçamentos que terminam na implantação. No ITJ01, soma R$ 588 milhões, ou 22% do investimento total.