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O casamento da Educação com a Engenharia de Produção

O casamento da Educação com a Engenharia de Produção

Foto: Divulgação / Portal do Bibliotecário

“Engenheirar” é um verbo que não encontra registro na maioria dos dicionários, mas, na Fundação Vanzolini é conjugado no indicativo para apontar uma certeza: o sucesso dos projetos de “formação continuada”, tocados pela área de Gestão de Tecnologias em Educação, percorre os mesmos traçados que a Engenharia de Produção criou como fundamentos.

Isso é inédito? No Brasil, sim, reflete a doutora em Psicologia da Educação, Beatriz Scavazza, com mais de 30 anos dedicados ao ensino-aprendizagem. Do alto de suas responsabilidades ainda vigoram cursos de especialização, aperfeiçoamento e extensão da PUC-SP. Contribuiu com igual medida para a Universidade de Mogi das Cruzes. Desde a virada do milênio é Coordenadora Executiva de Projetos na área de Gestão de Tecnologias em Educação (GTE), da Fundação Vanzolini.

“Um casamento entre educadores e engenheiros”. É assim que Beatriz analisa com humor o fato de a Vanzolini ser uma fundação da Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Bia Scavazza, como prefere ser chamada pelos seus pares, tem sob sua liderança a concepção, o desenvolvimento e a gestão de projetos de “formação continuada”. Muitos deles, com estratégias de EaD, conquistaram prêmios. São projetos de grande abrangência e alta complexidade, como os da Rede do Saber da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Há 16 anos se mantém na liderança de maior rede de videoconferência pública da América Latina. Opera com apoio de mídias interativas, conversa com quase 300 mil profissionais da rede estadual de ensino, e apresenta conteúdos que impactam na formação de quase 4 milhões de estudantes paulistas: um número superlativo.

Firme, articulada e apaixonada pela Educação, os desafiadores projetos sob a gestão de Bia Scavazza não param por aí. Ela concedeu uma entrevista de quase duas horas para a revista Educare. Seguem trechos dessa entrevista:

EaD no Brasil é uma grande tendência?

A educação a distância EaD – é uma modalidade de educação que cresce no país. É uma realidade que se estabelece lado a lado com o avanço das tecnologias de informação e comunicação. O mercado de EaD passou por um movimento de consolidação nos últimos 10 anos, com boa parte das fusões e aquisições do setor ocorridas entre 2008 e 2013. O último relatório analítico da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed), mostra um cenário interessante do Brasil com base no censo realizado em 2016. Temos 561.667 alunos em cursos regulamentados totalmente a distância, 217.175 em cursos regulamentados semipresenciais, 1.675.131 em cursos livres não corporativos e 1.280.914 em cursos livres corporativos.

O casamento da Educação com a Engenharia de Produção

Bia Scavazza é uma educadora premiada

Quais são as instituições de ensino que referendam esses números?

Os dados fazem parte do censo: são 54 instituições públicas federais, 26 instituições públicas estaduais e apenas 6 instituições públicas municipais. A manter o padrão, os municípios têm muito a crescer. Há, também, 32 instituições do Sistema Nacional de Aprendizagem, como o Senai, Sesi, Senac, Senat, Sebrae e, ainda,106 instituições privadas com fins lucrativos, 64 instituições privadas sem fins lucrativos, 14 órgãos públicos ou instituições do governo e 10 organizações não governamentais (ONGs). Esses números podem ser checados no site www.abed.org.br.

Pode haver uma demanda reprimida nesse universo?

Vivemos hoje uma situação turbulenta na política e na economia. Investir fortemente na educação é uma urgência que se notabiliza no Brasil. Democratizar o conhecimento, os saberes, é prerrogativa do avanço de uma civilização e um princípio dos direitos humanos fundamentais. As universidades americanas criaram o “Massive Open Online Courses” (MOOC), cursos on-line e gratuitos oferecidos ao estudante em qualquer parte do mundo. A Universidade de São Paulo ofereceu o seu primeiro MOOC em 2013, na plataforma Veduca. Um dos cursos foi o de “Estatística”, que nós da Fundação Vanzolini organizamos, implementamos e gestamos junto aos professores da Politécnica para os alunos do curso de Engenharia de Produção.

Investir fortemente na educação é uma urgência que se notabiliza no Brasil

Qual a sua reflexão sobre a formatação de conteúdos para EaD?

A Educação a Distância é uma realidade do mundo contemporâneo. Responde às necessidades do século 21 quanto à flexibilidade do tempo, do espaço e da escolha do conteúdo como aprendizagem. Em políticas públicas representa um bocadinho mais: é possível oferecer formação a um público massivo, sem necessidade de deslocamentos e a um custo muito baixo. Isso não é reflexão, é matemática. Por outro lado, é possível investir de maneira consistente na apresentação dos conteúdos. No ambiente virtual de aprendizagem o estudante pode acessar textos, videoaulas, jogos eletrônicos, simuladores, peças animadas, vídeos informativos do gênero jornalístico ou por meio de dramaturgia, além das muitas ferramentas de gestão. É importante ressaltar que a variedade de recursos didáticos é um dos indicadores de qualidade da formação continuada, seja ela totalmente a distância e auto instrucional ou semipresencial com apoio de tutorias.

Há projetos mais consistentes que outros para modelagem de EaD?

Há projetos que apresentam maiores ou menores complexidades e abrangências. Posso relacionar dois deles como exemplos desse conjunto de circunstâncias. A Fundação Vanzolini foi chamada pela Secretaria de Educação para implementar e realizar a gestão de um curso superior para mais de sete mil professores da rede pública paulista. Um requisito da Lei de Diretrizes e Bases do Ministério da Educação, para vigorar em 2006, e São Paulo quis se antecipar e garantir a formação de qualidade dos seus quadros. O perfil do público-alvo já era o de magistério, com pelo menos 10 anos de experiência em sala de aula, embora não tivesse uma graduação universitária. Para atender essa especificidade, três grandes universidades se debruçaram na criação de solução pedagógica para essa formação, que deveria ocorrer em dois anos. Mais um desafio: não afastar esses professores da sala de aula durante sua realização. O curso foi um sucesso de parcerias entre USP, Unesp e PUC-SP, e a estratégia adotada com modelo foi a EaD com apoio de tutores locais. Outro desafio semelhante foi a implementação e gestão do curso que padronizou a formação dos atendentes de creche na cidade de São Paulo. Após dois anos, quase 4 mil servidores receberam formação docente para atuar como Auxiliares de Desenvolvimento Infantil.

A Engenharia de Produção agregou estratégias fundamentais para qualquer projeto de educação que se faça em massa

Como surgiram esses desafios? Como começou a sua paixão pela Educação?

A minha primeira experiência com EaD veio por meio de solicitações de empresários e gestores do interior paulista. Eu coordenava a área de extensão da PUC de São Paulo, onde fiz a minha carreira acadêmica. Nós tínhamos um programa em convênio com o Sebrae-SP e percorríamos o interior fazendo eventos, cursos, palestras. Na época, 1993, a internet era muito restrita e a EaD era implementada por meio da BBS, precursora da internet. Foi assim que também iniciamos EaD na Universidade de Mogi das Cruzes sob a liderança do professor Roberto Leal Lobo e Silva, que foi reitor da USP. Nessa oportunidade, desenvolvemos um projeto financiado pelo Banco Mundial para formação de professores. Na sequência, ano 2000, surgiu um projeto desafiador na Fundação Vanzolini chamado “WWEscola”. Foi, então, o início do meu namoro com os politécnicos. Namoro entre engenheiros e educadores. Hoje, estamos casados. A Engenharia de Produção agregou com seus conhecimentos de processos e gerenciamento de projetos, as estratégias fundamentais para qualquer projeto de educação que se faça em massa, que se faça a distância, que envolva muitas pessoas, muitos parceiros, muitos agentes.

Que modelo é esse?

Essa é uma questão fundamental na implantação de processos de formação continuada por EaD. E não é pouca coisa. São processos muito distintos da aula presencial, em que o professor observa a reação da plateia e tem possibilidade de reformular sua estratégia pedagógica junto aos alunos. O processo de ensino a distância precisa ser muito bem planejado nas várias frentes, tanto do desenho instrucional com análise de educadores, quanto da escolha da plataforma tecnológica e dos recursos de comunicação com as dinâmicas mais assertivas. Isso exige um amplo conhecimento sobre o perfil do público-alvo, a dimensão da acessibilidade tecnológica desse público, a escolha do melhor método ou da melhor estratégia pedagógica para a comunicação dos conteúdos e, ainda, as soluções de TI que possibilitam o melhor recurso para trafegar nessa organização. Sem esses cuidados, a aprendizagem não se efetiva.

Como as universidades recebem tais inovações?

As próprias universidades foram parceiras no implemento das inovações. A recepção do novo surge com a comprovação de que é possível ofertar um programa educacional substantivo, realista, palpável: conteúdo de qualidade, comunicação eficaz e sucesso de aprendizagem sem dividir com os alunos o mesmo espaço físico. Nós temos uma série de depoimentos de catedráticos de universidades com o relato dessa vivência. Com referendos dessa natureza, ampliamos nosso trabalho atendendo demandas de vários órgãos de governo, de instituições privadas e do terceiro setor. São parcerias que nos forneceram insumos para ajudar na organização e na concepção de universidades corporativas, de cursos de graduação, de cursos de pós-graduação e mesmo de processos de educação em serviço para a área de Saúde, DetranSP, Cetesb e até para a indústria do álcool. O que fica dessa grande trajetória é a metodologia que desenvolvemos para transposição de conteúdos impressos para conteúdos digitais. Para mim, foi gratificante acompanhar durante mais de 30 anos o desenvolvimento de todo esse processo na educação.

É imperativo hoje adequar as estratégias e a formatação dos conteúdos aos dispositivos tecnológicos

A Rede do Saber, a maior rede pública de videoconferência da América Latina, foi o embrião desse processo?

A implantação da Rede do Saber, em 2003, foi de grande engenhosidade para a época. Contou com a concepção, a operacionalização e a gestão da Fundação Vanzolini, tudo devidamente solicitado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. A rede foi implantada junto à intragov do governo e conectou as 91 diretorias de ensino espalhadas pelo Estado. Criou-se com isso um canal de comunicação com quase 300 mil gestores, professores e agentes de ensino, por meio de uma tecnologia bidirecional. Hoje, a Rede do Saber está vinculada à Escola de Formação de Professores do Estado e conta com uma grade de cursos para formação continuada, com conteúdos que impactam quase 4 milhões de alunos matriculados na rede pública. É um desafio enorme. Nos dedicamos com perseverança, batemos muito a cabeça, aprendemos muito e, hoje, eu posso dizer com toda a certeza: sabemos fazer — e fazer muito bem.

Qual o desafio da EaD para os próximos anos?

Está na publicação em conectividade de larga escala. Iniciamos este século com muita dificuldade de conexão. Isso representava um entrave. Além de ser caro, poucos tinham acesso à internet. Hoje, a tecnologia está disponível nos vários dispositivos que o cidadão tem na mão ou no bolso. Você não precisa estar sentado a uma mesa e ter um computador para assistir a uma videoaula. O estudante em trânsito recebe os conteúdos no seu tablet, no seu celular. O que é imperativo hoje? É adequar as estratégias e a formatação dos conteúdos a esses dispositivos. São soluções tecnológicas responsivas de maneira a preservar o diagrama da publicação em telas grandes, como as do PC ou pequenas como as do celular. Não pode ter corte de conteúdo ou o vídeo não rodar. É tudo complexo. Mas a tecnologia existe e não terá volta. O celular é o mobile mais acessado no Brasil, perdendo apenas para os Estados Unidos. Hoje, um veículo de ponta na comunicação para EaD.

Beatriz Scavazza é doutora em Psicologia da Educação e Coordenadora Executiva GTE – Fundação Vanzolini, com mais de 30 anos dedicados ao ensino-aprendizagem

Fonte: Cruzeiro do Sul

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