Alguns exemplos de redirecionamento da produção

Trecho que material preparado e publicado no site do IEDI, Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, disponível em

 https://iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_995.html#

Para atender à necessidade urgente de produtos para combater a disseminação da Covid-19, inúmeras empresas industriais em todo mundo estão se mobilizando e, em alguns casos, estão reorientando temporariamente, e de modo voluntário, sua produção para atender às necessidades urgentes de produtos críticos vinculados à pandemia. 

Como destacam os analistas do Fórum Econômico Mundial9, as motivações são variadas, incluindo garantir a continuidade dos negócios, melhorar a resiliência de sua cadeia de suprimentos ou dinamizar formas inovadoras de gerar receitas. Esse fenômeno está ocorrendo nos mais variados setores industriais, desde o setor de bebidas aos setores automotivo e aeroespacial, passando por indústrias de cosméticos de luxo, têxteis, eletroeletrônica, farmacêuticas e químicas.

No Reino Unido, em resposta ao desafio lançado pelo governo para a fabricação ventiladores médicos, foi formado um consórcio sob a coordenação da Catapulta High Value Manufacturing, uma organização pública de pesquisa e tecnologia. Integram esse consórcio importantes empresas industriais, de tecnologia e engenharia do Reino Unido dos setores aeroespacial, automotivo e médico, tais Airbus, Ford, Siemens Healthineers, Siemens UK, Rolls-Royce, entre outros, bem como as equipes de Fórmula 1 baseados no Reino Unido, Haas F1, McLaren, Mercedes, Red Bull Racing, Racing Point, Renault Sport Racing, Williams. Atuam como facilitadores-chaves do consórcio, as multinacionais de informática Microsoft, Accenture, entre outras. 

De acordo com informações disponíveis no site do consórcio, em 16 de abril de 2020, as empresas já haviam recebido pedidos formais do governo britânico acima de 15.000 unidades e trabalhavam com a meta de produzir 1.500 unidades semanais de dois modelos de ventiladores10. Outros consórcios como o KCL, Oxford University and Smith+Nephew não tiveram os seus designs aprovados pelo Painel Clínico, criado pelo governo britânico11

Também na França, foi criado um consórcio entre as empresas Air Liquide, o grupo PSA, que reúne as empresas automotivas Peugeot e Citroën, Schneider e Valéo para produzir 10 mil respiradores artificiais entre 1º de abril e meados de maio. A Air Liquide já produz respiradores artificiais, mas sua capacidade de produção atingiu, desde o início da pandemia, o seu limite que é de mil respiradores por mês.

Nos Estados Unidos, como já mencionado, não obstante iniciativas voluntárias de empresas industriais para ampliar a produção de suprimentos críticos, o governo usou o DPA para forçar ou apressar a colaboração. Assim, nos dias 8 e 16 de abril, o Departamento de Saúde e Serviço Humano (DPHHS) anunciou, sob a égide do DPA, três contratos de produção de ventiladores, em um total 125.500 unidades no valor total de US$ 1,47 bilhão, que serão destinados ao Estoque Nacional Estratégico12

O primeiro contrato, com a montadora GM, estabelece a produção de 30.000 ventiladores, a um preço total de US$ 489,4 milhões, que serão entregues até o final de agosto de 2020, com entrega parcial de 6.132 ventiladores até 1º de junho de 2020. O segundo contrato foi estabelecido com a empresa Philips, a um preço total de US$ 646,7 milhões, para produção de 45.500 ventiladores, com entrega escalonada de 2.500 ventiladores ao até o final de maio de 2020 e um total de 43 mil ventiladores a serem entregues até o final de dezembro de 2020. O terceiro contrato, anunciado no dia 16, foi com a General Eletric para a produção de 50 mil ventiladores até 13 de julho, a um preço total de US$ 336 milhões.

No Brasil, Associação Brasileira dos Fabricantes de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) criou um grupo com 50 empresas associadas para a produção de peças, partes e equipamentos médicos. As empresas irão produzir desde ventiladores pulmonares a escudos de proteção facial, bem como peças, insumos e componentes, auxílios em sistemas de montagem, serviços de usinagem, corte a laser de peças e testes de validação. A multinacional alemã Thyssenkrupp Autômata, que fabrica peças para a indústria aeronáutica em Taubaté (SP), irá produzir um total de 120 mil máscaras do tipo “face shield13

A forte demanda por álcool e gel desinfetante levou, por exemplo, empresas de vários setores industriais, como perfumaria, artigos de beleza, bebidas, produtos farmacêuticos e químicos, a reorganizarem parte de sua produção para atender a necessidade de hospitais, clínicas, asilos e do setor de distribuição de alimentos. É o caso, por exemplo, da Kablin, do setor de papel e celulose, que, em parceria com o Instituto Senai, desenvolveu um espessante a partir de madeira para substituir matéria prima derivada de petróleo para transformar álcool líquido em álcool em gel14.

No Japão, a empresa de cosmético de luxo a Shiseido, além de ter passado a produzir de gel hidroalcoólico tanto no mercado doméstico como na França e nos Estados Unidos, desenvolveu uma fórmula para peles sensíveis, já aprovada pelo Ministério da Saúde do Japão. A produção mensal de 100 mil litros será iniciada em maio em quatro fábricas domésticas e será vendida exclusivamente para hospitais japoneses por intermédio do governo15.

De igual modo, em diversos países, inúmeras empresas do setor têxtil reorientaram suas linhas de produção para fabricar máscaras e aventais cirúrgicos. No Brasil, por exemplo, pelo menos 50 grandes empresas do setor têxtil redirecionaram suas linhas de produção para fabricar máscaras de pano, de uso para a população geral. O mesmo está ocorrendo com empresas de menor porte, como as do polo têxtil da região de Nova Friburgo no estado do Rio de Janeiro, onde cerca de 260 fábricas realizaram conversão das suas linhas de produção de roupa íntima para a confecção de EPI16

Nos Estados Unidos, também empresas de material esportivo, como a Nike e a Fanatics, converteram suas fábricas para a produção, respectivamente, de protetores faciais e respiradores que purificam o ar, e aventais médicos e máscaras descartáveis17.

Na Alemanha, a existência de fabricantes nacionais de reagentes e dispositivos permitiu que o país adotasse desde o dia 27 de janeiro de 2020, quando o primeiro caso foi identificado, a estratégia de teste de diagnóstico da Covid-19 em massa. Desde então, foram feitos 500 mil testes diários do tipo RT-PCR, com base na sequência de RNA desenvolvida pelo Charity Hospital de Berlim. 

O laboratório TIB Molbiol de Berlim foi um dos primeiros a comercializar testes na Alemanha e no mundo. Porém, para aumentar ainda mais o ritmo e a capacidade de teste disponível, a divisão Healthcare Solutions da Bosch, em parceria com o laboratório britânico Randox Laboratories, anunciou no 26 de março, ter desenvolvido em apenas seis semanas um teste ultrarrápido, confiável em 95%, cujo resultado fica pronto em duas horas e meia18

Não obstante os esforços de produção do setor industrial, diversos países, inclusive desenvolvidos, ainda enfrentam severa escassez de equipamentos de proteção, de ventiladores e respiradores, kit para testes e outros suprimentos médicos críticos. Como ressaltam os pesquisadores da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido)19, embora a reorientação das linhas de produção seja uma solução de resposta rápida para atender à escassez global de itens críticos do COVID-19 que podem salvar vidas aproveitando a capacidade ociosa da indústria, essa estratégia temporária pode ser cara e cheia de desafios, o que explica os resultados limitados até o momento. 

Dificuldades e desafios da reconversão industrial

A capacidade de resposta das empresas industriais aos apelos dos governos esbarra, não só na dependência de insumos importados, como na súbita e gigantesca demanda. Um dos maiores fabricantes de ventiladores do mundo, a empresa suíça Hamilton Medical, declarou ao jornal New York Times20, que, mesmo tendo contratado novos funcionários, de uma encomenda de 7 mil ventiladores feita pela Itália, a empresa só pode entregar 400. O aumento substancial da produção em um curto período de tempo de máquinas complexas, compostas por centenas de peças menores produzidas por empresas em todo o mundo, é extremamente difícil. 

Como ressaltam os pesquisadores da Unido, na indústria manufatureira moderna, os processos de produção são altamente especializados e as empresas buscam maximizar a eficiência. Abordagens como a fabricação enxuta, que ajudam os fabricantes a eliminar o desperdício em toda a cadeia de suprimentos e a melhorar continuamente a produtividade, dificultam muito a criação de uma nova linha de produtos.

Ademais, os graus de dificuldade enfrentados pelas empresas para a ampliação da produção ou para reconversão das linhas de produção para a fabricação dos produtos necessários ao combate do Coronavírus variam com a complexidade do produto a ser fabricado. 

É mais fácil para empresas do setor de bebida fabricar álcool ou para os setores químico e de perfumaria e cosmético reconverterem suas fábricas para produzir desinfetante e álcool gel, do que para empresas automotivas, metalúrgicas e de eletrodomésticos modificarem suas linhas de produção para fabricar escudos protetores, ventiladores e respiradores etc., que exigem conformidade com as normas das autoridades de saúde e são, como no caso dos ventiladores, de média a alta complexidade. O tempo necessário para executar a conversão das linhas de produção aumenta com a complexidade do produto. 

Outro desafio importante nesse contexto da pandemia e explosão da demanda é encontrar e qualificar rapidamente os fornecedores. Nem sempre a base de fornecedores existente pode ser aproveitada para evitar processos de integração prolongados. Ademais, no caso de empresas que não são produtoras de tecnologia médica, redirecionar as linhas de produção para fabricar ventiladores para as unidades de terapia intensiva é bastante complexo, exigindo, portanto, não só parceria com empresas fabricantes desse tipo de equipamento como compartilhamento de propriedade intelectual. 

Além disso, as empresas fabricantes de dispositivos médicos precisam ser registradas nos reguladores relevantes. Mesmo que algumas regulamentações tenham sido flexibilizadas, dispositivos médicos complexos, como ventiladores, ainda devem cumprir padrões rigorosos. O cumprimento desses padrões requer um ensaio clínico completo, que é demorado e caro. 

De acordo com os pesquisadores da Unido, estabelecer um sistema de controle de qualidade para produção em massa é outro obstáculo para aumentar a produção. Podem ser necessárias várias novas execuções de teste, o que exigirá recursos significativos para produzir documentação do processo, estabelecer controles de segurança e verificar a qualidade dos suprimentos.

Porém, segundo eles, a rápida expansão da produção não é apenas um desafio tecnológico, mas requer novas capacidades organizacionais – do design e fabricação do produto, à governança da cadeia de suprimentos, à regulamentação e aos testes. Por esse motivo, o redirecionamento das linhas de produção continua sendo um desafio, mesmo para itens tecnologicamente menos complexos, como máscaras. 

Os pesquisadores da Unido destacam ainda que, embora seja crucial no enfrentamento da escassez global de itens críticos da Covid-19, o redirecionamento de linhas de produção não é uma estratégia de longo prazo e os governos precisam apoiar as empresas na eventual transição para tempos “normais”. 

Segundo eles, entre as empresas incumbentes há preocupações legítimas sobre superprodução ou desperdício, se aparecerem muitos novos participantes. Por meio de políticas de compras públicas em massa e coordenadas, os governos podem fornecer visibilidade de pedidos e garantia de que itens produzidos em excesso farão parte dos estoques nacionais.

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