Como ficará o mundo depois da pandemia?

Insights de Martin Wolff, o mais respeitado jornalista do Financial Times. Fonte: vídeo disponível no website da revista

A resposta mais importante é: realmente não sabemos.

Em termos econômicos e sociais, não há precedentes de uma crise dessa magnitude, motivada por uma doença e, tendo como consequência, governos adotando medidas para desligar ou adaptar, boa parte da máquina econômica de países inteiros.  O mundo já viveu várias crises, choques do petróleo, guerras mundiais e outras. Mas a amplitude do problema que afeta simultaneamente o mundo todo bem como a combinação entre doença e crise econômica é muito diferente de tudo o que já assistimos. Assim, a previsão para os próximos dois anos, por exemplo, é bastante incerta.

Porém, é possível afirmar que, ao final da crise, ocorrerá grande aumento das dívidas, tanto no setor público com no do setor privado, e, em especial, em países emergentes. Haverá muitas quebras de empresas. O interesse para investimento nesses países também permanecerão muito baixas. Taxas de inflação permanecerão baixas. Além disso, veremos um aumento generalizado nos impostos, com impacto maior sobre os cidadãos relativamente ricos. 

Será bastante provável revermos políticas de austeridade (na Europa com certeza e também nos Estados Unidos) que se seguiram a última grande crise. Dessa vez o impacto será, inevitavelmente, mais abrangente e demandará ações mais drásticas do estado e com isso haverá a necessidade de se gerar um novo “contrato social” comparável com o que ocorreu após a segunda guerra mundial.

Vamos agora a questões que podem acontecer mas são incertas: com o contato entre as pessoas se tornando cada vez mais reduzido por conta do confinamento, o mundo também estará mais dividido. As relações internacionais (entre os países da União Europeia e mais ainda entre os Estados Unidos e China) já estão terríveis e ficarão ainda piores. Isso é ilustrado pela séria discussão de acabar com a Organização Mundial do Comércio e a globalização comercial. Com isso políticas nacionalistas e protecionistas, estão e estarão mais fortalecidas. Ou seja, todo o processo de globalização será desacelerado. Isso será ruim para a economia dos países e levará a mudanças drásticas nos negócios e na forma como negócios são feitos.

Outro setor que sofrerá mudanças será o de tecnologia. Nesse caso, embora as consequências sejam um tanto incertas, podemos inferir que o uso de tecnologias para se trabalhar e fazer negócios, o que muitas pessoas ainda não sabiam ser possível, é ainda mais presente e essa mudança será permanente. A maneira como cidades, a mobilidade e o trabalho são estruturados também será transformada tendo como base a tecnologia. Isso trará muitas vantagens para alguns tipos de negócios (principalmente os bastante atrelados a tecnologia) e muitas desvantagens, prejuízos e pressão para reformulação para outros tipos de negócios, mais analógicos. 

Guerras e pandemias mudam o mundo nos aspectos tecnológicos, com relação a políticas fiscais e à integração/globalização. Algumas das transformações observadas previamente são, de fato, mais incertas que outras, mas, com certeza, nos próximos 2-3 anos, o mundo sofrerá mudanças drásticas que afetarão toda a humanidade: o mundo em que vivíamos será outro. 

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