Aumentar a produtividade no Brasil depende pouco de alta tecnologia

Por Paulino Francischini

Gestão da Produção

A crença convencional das empresas no Brasil é de que a produtividade depende de equipamentos de alta tecnologia no processo produtivo e se possível com tempero de realidade virtual, inteligência artificial e indústria 4.0. Até pode ser verdade para empresas grandes e bem administradas que possuem um processo produtivo já enxuto, organizado e eficiente.

O passo adicional nesta situação é melhorar as operações de transformação com equipamentos que processem novos materiais ou os que processem em velocidade maior. Operações de transformação são essenciais para o resultado da empresa, uma vez que são percebidas e remuneradas pelo cliente através da marca no produto e serviço, pois assim agregam valor.

Contrariando o senso comum, as operações de transformação devem ser as últimas a serem atacadas em projetos de melhoria

Elas representam menos de 1% do lead time de produção enquanto que os desperdícios representam 99%. Nada mais lógico do que iniciar as melhorias pela redução de desperdícios do que investir tempo e dinheiro em melhorar operações de transformação. Reduzindo 50% do tempo de transformação, a redução no lead time será de 0,5% e uma redução de 10% nos desperdícios representará uma redução de 9,9% no lead time.

Este conceito já era ensinado por Taiichi Ono, responsável pela implementação do Toyota Production System (STP) na década de 50: “a única coisa que estamos fazendo é reduzir o lead time eliminando os desperdícios”. James Womack, que introduziu o conceito de Lean Thinking, baseado nos princípios do STP, também segue na mesma direção: ”ao aprender a identificar desperdícios você descobrirá que há muito mais desperdícios ao seu redor do que você jamais imaginou”.

Desperdício é o vilão da improdutividade dos processos produtivos

Também é entendido como todas as atividades de um processo que agregam custo, mas não agregam valor para o cliente e que estão presentes nos processos em forma de estoques desnecessários, movimentações dos operadores, transporte de materiais, esperas, defeitos, processamento desnecessário e superprodução que gera estoques intermediários.

Atacar estas atividades que geram custo mas o cliente não percebe que ocorreram, não necessariamente precisa de equipamentos sofisticados. Seguramente, a criatividade dos próprios operadores, seguindo o método bem estruturado baseado no PDCA, é suficiente para eliminá-los ou, pelo menos reduzi-los.

Soluções simples como células de produção, troca rápida de ferramenta, nivelamento da produção, dispositivos a prova de falhas, gestão visual, 5S, trabalho padronizado, manutenção autônoma, kanban e autonomação são extremamente eficazes para eliminação de desperdícios e sem a necessidade de emprego de alta tecnologia para conseguir estes objetivos.

Em resumo, “o mato está alto” quando se fala em melhoria de produtividade em médias e pequenas empresas no Brasil responsáveis pela grande maioria dos empregos e da produção. Não é o momento para estas empresas investirem em equipamentos sofisticados como se fossem um remédio milagroso para seus problemas de produtividade. Ter equipamentos de alta tecnologia sem um suporte interno ou externo que os mantenha funcionando com estabilidade é trocar um problema por outro.

A recomendação é aprender a enxergar os desperdícios que existem no processo produtivo da empresa e colocar meios para atacá-los e eliminá-los. Assim, um recurso que era colocado em atividades que geravam apenas custo, passam a ser direcionadas para atividades que geram valor.

– – –

Paulino Francischini é professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo nas áreas de Projeto da Fábrica, Lean Manufacturing e Lean Service e professor do MBA em Gestão da Produção na Fundação Vanzolini. Graduado em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo (1980), possui mestrado em Engenharia (Engenharia de Produção) pela Universidade de São Paulo (1990) e doutorado em Engenharia (Engenharia de Produção) pela Universidade de São Paulo (1996).

 

Comentários