A área de inovação deve desaparecer?

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Por Ricardo Kahn

Hoje mais cedo, no encontro do grupo Open Innovators Brasil no Cubo, foi discutido se o destino de uma área de inovação na corporação é se tornar irrelevante – e desaparecer conforme a inovação é assimilada ao dia-a-dia da empresa. Ao longo do tempo em que trabalho com inovação em grandes empresas, já escutei isso diversas vezes. Não posso dizer que discordo completamente disso, mas nunca me senti à vontade com essa afirmação.

Para explicar a minha visão sobre a função de uma área de inovação, costumo fazer um paralelo com a área de Qualidade. Tive uma vez uma interessante conversa com o gestor de qualidade de uma grande empresa. Ele me disse:

O que acho curioso é que nessa empresa, eu sou um dos poucos que não faço qualidade. Quem faz qualidade é quem tem contato direto com o produto, com o cliente… Eu não. Fico no backoffice só ajudando cada um a oferecer mais qualidade com seu trabalho“.

Analogamente, uma das grandes funções da área de inovação não é fazer inovação. É dotar cada um na empresa do processo, da metodologia, ferramentas e capacitação para trabalhar com mais inovação. E também usar métricas, comunicar, incentivar e gerar mobilização sobre o tema.

Usando esse pensamento, essa área permite que a empresa inove. Cria mecanismos diversos de startup engagement, adequa processos para maior flexibilidade, engaja os colaboradores e trabalha a cultura de inovação. Naturalmente, quanto mais esses conceitos são assimilados pela empresa, menos ela vai precisar do esforço dedicado de uma área.

Mas isso não é tudo. A área de inovação também pode fazer inovação diretamente. Para alguns tipos de projetos, que em geral desafiam as fronteiras do core-business da empresa, é importante a existência de uma equipe dedicada e apartada do dia-a-dia da operação. São projetos que inovam na cadeia de valor ou no modelo de negócios, e que têm que estar “protegidos” em uma estrutura separada.

Obviamente, a alocação dessas iniciativas em uma área de inovação é temporária, pois caso seja alcançado sucesso nas primeiras etapas, o projeto precisará ser alocado em outro espaço na estrutura, como em uma área de negócios, uma unidade de negócios que preserve a “ambidestria” ou mesmo com um spin-off.

Em meu entendimento, existindo área dedicada ou não, Inovação é Estratégia. É a parte da estratégia que define o que a empresa quer ser no futuro e como pretende fazer isso. As iniciativas e os projetos que ela realiza só fazem sentido se alinhadas com essa visão. Inovação é função do CEO e do board. A partir do momento que a inovação se tornou a empresa toda, a existência de uma área específica para isso ou não é apenas uma particularidade estrutural.

Ricardo Kahn é responsável por Estratégia e Inovação na ISA CTEEP. Tem mais de 15 anos de experiência em Inovação e Desenvolvimento de Negócios em energia, telecom, autopeças e consultoria. Participou da fundação de três startups de base tecnológica e desenvolveu diversos projetos que resultaram em novos produtos e serviços, unidades de negócio ou spin-off companies. Foi responsável pela implementação iniciativas de aceleração no Brasil, como o Wayra, da Telefônica, e a Aceleração de Projetos da AES. Leciona e apresenta palestras sobre disciplinas relacionadas à inovação. É Mestre em Administração de Empresas pela FGV-EAESP e Engenheiro de Produção pela POLI-USP.

 

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