Cuide do seu trabalho

(e como isso contribui para a construção de um perfil proativo e empreendedor)

Gerson Kiste*

Cuide do seu trabalho

Cuidar é dedicar esforço e tempo (a algo) com determinado objetivo.

Recentemente recorri a um ensinamento que obtive ao longo de minha vida pessoal e profissional: ser um observador dos pequenos detalhes à nossa volta, observar as ações aparentemente simples e corriqueiras e observar o comportamento das pessoas, contribui para o desenvolvimento de uma série de habilidades pessoais.

E a lembrança desse ensinamento surgiu em virtude de uma situação corriqueira que vivenciei.

Numa manhã de sábado dirigi-me à área de lazer do edifício em que resido para sentar-me em um banco e ler um livro. Quando lá cheguei observei que um auxiliar de limpeza do condomínio estava pintando um dos bancos. Achei curioso pois normalmente não é sua atribuição esse tipo de atividade. Talvez por perceber meu olhar de curiosidade ou talvez por querer dar uma satisfação para um condômino, ele me disse que ao executar o serviço de limpeza do local (que é sua atribuição), observou que esse banco estava necessitando de retoque em sua pintura e que se dirigiu ao zelador (seu superior hierárquico) relatando o que havia observado e se dispondo a executar esse serviço, simples, mas que não faz parte do rol de suas atividades. Acredito que o zelador o autorizou baseado na demonstração de interesse do colaborador.

Ele concluiu, dizendo: para que o local fique bonito e agradável para os condôminos, não basta apenas estar limpo.

Esse episódio corriqueiro contribuiu inicialmente para que eu refletisse sobre em que medida cuidamos efetivamente do trabalho que realizamos.

Não me refiro somente a não cometer erros ou realizar tudo no prazo requerido e executar os processos sob nossa responsabilidade de maneira eficiente.

Vou além desses que são cuidados básicos para os quais todo profissional deve estar atento.

Refiro-me àquilo que não está muito explícito e que por não termos o hábito de observar o que está ao nosso redor, não conseguimos enxergar e consequentemente não cuidar.

Exemplifico voltando ao caso citado acima.

A responsabilidade do auxiliar é manter o local limpo não somente por uma questão de higiene, mas também por uma questão de apresentação do local. Os condôminos querem ter uma sensação agradável ao utilizar esse espaço de lazer e a aparência das instalações contribui, positiva ou negativamente, para que essa sensação seja ou não agradável. Com certeza um banco com a pintura ruim prejudica essa sensação.

Pode até ser que o auxiliar, ao se defrontar com um banco com aparência ruim, tenha pensado: “posso deixar tudo limpo, mas o condômino, ao observar o ambiente como um todo, poderá achar que não está bom. O resultado de meu trabalho, sob a ótica do cliente, poderá não ser valorizado pois faz parte de um todo que à sua vista não está de acordo com sua expectativa”.

E nós temos consciência do todo do qual o nosso trabalho faz parte?

E observamos e cuidamos dos detalhes que estão agregados ou fazem parte dele?

Estamos dispostos a realizar tarefas que, em princípio, não fazem parte da descrição do nosso cargo?

Não estou propondo que simplesmente extrapolemos nossas funções, pois isso poderá até trazer mais complicações, dependendo muito da cultura da empresa em que você está atuando.

Proponho que precisamos desenvolver um acurado senso de observação que será fundamental para a aquisição dessa habilidade de cuidar do nosso trabalho.

Ao atentarmos para os aspectos não tão explícitos que estão agregados às nossas atividades, poderemos agir em relação a todos eles, quer seja através de ações de execução propriamente ditas ou através de ações de recomendação junto àqueles responsáveis pela execução.

Refletir sobre o que podemos mudar e até onde a nossa atuação e influência pode nos levar.

Isso é o que se rotula como “fazer mais do que se espera”, que é uma das habilidades mais requeridas atualmente pelo mercado.

Estar atento aos detalhes que estão integrados ao nosso trabalho. Observar, conhecer e agir.

Pensar no todo e no objetivo desse todo. Entendermo-nos como elo de uma cadeia e, portanto, ter a mentalidade de que somos sempre prestadores de serviços.

O que vai importar muito é o quanto cuidamos do nosso trabalho. Não somente como fazemos.

Alguns dos significados da palavra “Cuidar” que servem para a nossa reflexão:

  • Ação de tratar de algo ou de alguém;
  • Dar atenção a;
  • reparar ou notar;
  • Manifestar interesse ou atração por.

Erik Erikson (1998), afirma que o cuidado corresponde a “[…] um compromisso amplo de cuidar das pessoas, dos produtos e das ideias com os quais aprendemos a nos importar […]”, mas que também é dependente das forças que surgiriam nas fases de desenvolvimentos anteriores: esperança e vontade, propósito e habilidade, fidelidade e amor.
Observar e cuidar são ações que com certeza irão auxiliar no desenvolvimento de uma série de outras habilidades, desde que encaremos os seus resultados como oportunidades para aprimoramento e crescimento. Façamos disso um hábito.

Ao ter uma visão mais ampla das situações e do comportamento das pessoas resultante do hábito de observação, iremos buscar mais conhecimentos que irão melhorar as nossas habilidades de entendimento, discernimento e argumentação, e com isso auxiliar na solução de problemas; teremos maior noção sobre as nossas possibilidades de ação e sobre nossa capacidade de assumir diferentes responsabilidades.

E esse conjunto de habilidades irá contribuir para a construção de um perfil proativo e empreendedor.

Tenha certeza que em algum momento, o reconhecimento e as recompensas decorrentes dessas atitudes irão aparecer.

*Gerson Kiste – Mestre em Administração, professor universitário, consultor de empresas, especialista em recursos humanos. Professor da disciplina de “Gestão de Pessoas” e da disciplina de “Coaching” no Curso de Especialização em Administração Industrial (CEAI), da Poli-USP e professor do curso de Comunicação no Ambiente de Trabalho na Fundação Vanzolini.

 

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