O fim (simbólico) do trabalho e uma nova era para quem não precisa trabalhar

O fim (simbólico) do trabalho e uma nova era para quem não precisa trabalhar

Por Marcelo Nakagawa

Os levantamentos assustam, mas, dependendo da pesquisa, entre 50% a 75% dos trabalhadores atuaria em outra atividade ou empresa “se pudessem escolher”. Trabalhadores nesta situação terão chances, cada vez maiores, de “escolher” nos próximos anos.

Etimológica e historicamente, trabalho não é algo prazeroso. Da sua origem latina tripallium, um instrumento de tortura, ao seu caráter obrigatório para garantia de subsistência ou acesso a outros bens, o trabalho é um meio e quase nunca um fim em si para a realização pessoal.

No Brasil, simbolicamente, “a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 26 de novembro de 1930, foi uma das primeiras iniciativas do governo revolucionário implantado no Brasil no dia 3 daquele mesmo mês sob a chefia de Getúlio Vargas. O ‘Ministério da Revolução’ – como foi chamado por Lindolfo Collor, o primeiro titular da pasta – surgiu para concretizar o projeto do novo regime de interferir sistematicamente no conflito entre capital e trabalho. Até então, no Brasil, as questões relativas ao mundo do trabalho eram tratadas pelo Ministério da Agricultura, sendo na realidade praticamente ignoradas pelo governo.” Assim começa a explicação do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) sobre o surgimento do Ministério do Trabalho no país.

O trecho é particularmente interessante pois resume a dinâmica do contexto do trabalho naquele momento. Revoluções não ocorrem da noite para o dia, por mais que uma data ou ano passem a representá-las posteriormente. Em 1930, o avanço da indústria e comércio na economia brasileira era nítido e muitos deixavam a agricultura para trabalhar em fábricas, comércios e prestadores de serviços urbanos. O conflito entre capital e trabalho também era bastante caracterizado na medida em que havia (e ainda há, não só no Brasil) elevada exploração do trabalho por aqueles que detinham o capital.

Quase 90 anos depois, agora, em 2019, o Ministério do Trabalho foi extinto e suas funções transferidas para outros ministérios como o da Economia e Justiça. Mas este fim é apenas simbólico em relação às profundas modificações naquilo que vínhamos chamando de trabalho.

Historicamente, até 1784, trabalho era algo associado aos artesãos. Pessoas que produziam, artesanalmente, algo de valor para os demais. O ferreiro, o fabricante de sapatos ou de tecidos entravam nesta categoria. Mas este ano marca o surgimento da máquina à vapor na Inglaterra que permitia que processos artesanais pudessem ser conduzidos por equipamentos, reduzindo assim a demanda e os ganhos do sapateiro, ferreiros e outros “eiros”.

Tentando frear o que depois passou a ser chamado de a 1ª Revolução Industrial, alguns destes artesãos se tornaram ludistas, pessoas que invadiam as fábricas à noite para destruir as máquinas, na esperança de manterem seus trabalhos como eram há séculos. A partir deste momento, o trabalhador também passa a ser um operário, alguém empregado para operar uma máquina em uma fábrica.

Mas havia diversas outras funções como o linkboy. Pessoas que utilizavam tochas para iluminar o caminho de pessoas que precisam se locomover durante a noite em algumas das principais cidades europeias. Mas esta profissão começa a perder o valor a partir de 1870, quando a eletricidade passa a ser adotada em fábricas e depois em cidades. Muitos apontam esta data e fato como principal divisor que marca o início da 2ª Revolução Industrial. Mas a adoção da divisão do trabalho nas fábricas teve um impacto ainda maior na sociedade já que não era mais necessário operários especializados, apenas funcionários que pudessem executar uma única tarefa simples. Por serem facilmente substituíveis, estes funcionários eram baratos para o dono da fábrica, intensificando assim a tensão entre trabalho e os donos do capital. De certa forma, este foi o contexto para que o Ministério do Trabalho fosse criado no Brasil muitas décadas depois.

O trabalho ganha novas perspectivas a partir de 1969 com a adoção de tecnologias da informação, eletrônica e automação. Agora, não apenas os funcionários das fábricas, mas os de prestadores de serviços também são afetados. Funções como calculista, datilógrafo e caixa de banco começam a perder espaços nas organizações pois novas tecnologias como planilhas eletrônicas, editores de texto e ATMs são adotadas por empresas de todos os portes, marcando a 3ª Revolução Industrial. Para continuar sendo útil para a empresa, o funcionário precisa adotar a postura de ser um colaborador, contribuindo para o desenvolvimento do negócio além da sua função inicial, pelo qual foi contratado.

Este é o modelo mental atualmente em vigência na maioria das organizações ao redor do mundo e aceito por seus trabalhadores.

Mas estamos no início da 4ª Revolução Industrial, que mais uma vez altera drasticamente o que entenderemos por trabalho e sua relação com os donos do capital. Uber, Airbnb, Didi Chuxing (99 no Brasil), Rappi, Loggi, iFood e tantas outras novas empresas estão gerando milhares de novos postos de trabalho, porém, de um novo tipo de função: os trabalhadores de aplicativo. E se no passado o capital poderia representar uma grande barreira para a entrada de novos competidores, na 4ª Revolução Industrial fintechs podem enfrentar os maiores bancos do planeta, serviços de hospedagem peer-to-peer tem mais capacidade que as maiores redes hoteleiras do mundo e startups de economia compartilhada podem ser mais eficientes que seus concorrentes intensivos em capital.

A 4ª Revolução Industrial também avança sobre trabalhos notadamente mais sofisticados como advogados, médicos, engenheiros e professores, já que o uso de inteligência artificial, ciência dos dados (big data) e aprendizagem máquina (machine learning) estão conseguindo oferecer soluções cada vez mais eficientes em um número cada vez maior de trabalhos. Assim como ocorreu nas revoluções industriais anteriores, uma boa parte dos trabalhadores perderá seus empregos. E a regularização da terceirização da atividade-fim pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2018, só tende a acelerar estes efeitos no Brasil.

Infelizmente, uma parcela importante dos trabalhadores impactados pela 4ª Revolução Industrial não entenderá o que está acontecendo e repetirá o ciclo que os levou àquela situação de xeque-mate profissional.  Mas outra parcela irá repensar seus talentos e habilidades, adquirir novos conhecimentos, praticar novas atitudes e, principalmente, definir o que querem fazer em suas carreiras profissionais. Essas pessoas vão procurar se reinventar como trabalhadores, tornando-se empreendedores de si mesmos. Para esta parcela, a frase do Rolim Amaro, empreendedor da TAM, sempre fará sentido: “Só trabalha, no sentido duro da palavra, quem não gosta do que faz. Por isso, eu, graças à Deus, nunca precisei trabalhar.”

fonte: Blog do Empreendedor

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Sobre o autor

Marcelo Nakagawa é Professor na Fundação Vanzolini. É membro do conselho da Anjos do Brasil e da Artemísia Negócios Sociais. É colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME. É consultor de empreendedorismo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e Bradesco. É autor dos livros Empreendedorismo: Elabore seu plano de negócio e faça diferença (Ed. Senac, 2013) e Plano de Negócio: Teoria Geral (Ed. Manole, 2011) e co-autor de Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil (Ed. Evora, 2012), Sustentabilidade & Produção (Ed. Atlas, 2011) e Engenharia Econômica e Finanças (Ed. Elsevier, 2009) . É doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), mestre em Administração e Planejamento (PUC-SP) e graduado em Administração de Empresas (FEA-USP). Na Fundação Vanzolini, ministra aulas nos Cursos de Capacitação em Gestão da Qualidade e o curso Práticas de Liderança e de Gestão de Pessoas nas Organizações.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.
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