Como nossos pais

Como nossos pais

“Mas é você que ama o passado e que não vê, é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem.”

(trecho da canção “Como nossos pais”, de autoria de Belchior)

Sempre fui um grande admirador do compositor e poeta Belchior.

As letras de suas canções nos remetem a refletir sobre a vida, sobre nossos comportamentos e sobre a sociedade em geral, entre tantas outras possibilidades de reflexão.

A canção cujo título me apropriei para dar título a esse artigo foi lançada em 1976 e, entre tantas outras alusões, retrata a necessidade de enxergarmos e pensarmos sobre as mudanças que ocorrem à nossa volta.

Não pretendo nesse artigo incluir reflexões sobre a época em que essa canção foi escrita, mesmo porque estou escrevendo sobre uma reflexão específica e atualizada baseada em alguns trechos da canção.

O mundo, desde que é mundo, passou e continua passando por muitas e contínuas mudanças, pois mudar é inerente à natureza humana e é o que provoca a evolução da sociedade.

Já de algum tempo, as mudanças ocorrem em um ritmo cada vez mais acelerado.

Valores, crenças, hábitos e costumes são revistos constantemente. Paradigmas até então absolutos são substituídos rapidamente por novos paradigmas, num processo interminável de replacement.

Não apenas, mas especificamente no mundo dos negócios e, em decorrência no mundo do trabalho, a abordagem sobre o mundo VUCA é a que exprime com toda propriedade, e de forma abrangente, o que está ocorrendo nos dias atuais em termos de mudanças.

V (volatilidade)

U (incerteza – em inglês uncertainty)

C (complexidade)

A (ambiguidade)

As características do mundo atual que são delineadas nessa abordagem, são:

  • Volatilidade – há um grande volume de mudanças as quais ocorrem com muita agilidade. Isso faz com que haja uma maior dificuldade de previsão de cenários.
  • Incerteza – é certo que atualmente temos um grande volume de informações, porém nem sempre são úteis para compreender o futuro. Convivemos com mudanças disruptivas e, via de regra, as consequências dessas disrupções são imprevisíveis.
  • Complexidade – as ações e suas consequências não podem mais ser vistas e analisadas de forma isolada, pois tudo faz parte de um sistema com diversos elementos interdependentes e conectados. Quanto mais elementos, maior a complexidade, principalmente em razão das relações que há entre eles.
  • Ambiguidade – atualmente há muitas formas de interpretar e analisar os contextos que são cada vez mais complexos. Vivemos em novos cenários e, portanto, uma mudança disruptiva e seus impactos não pode ser analisada baseada somente em históricos e em experiências anteriores.

Essa abordagem sobre esse tal mundo VUCA é familiar para nós ou, como diz a canção, ficamos amando (e presos) ao passado, sem acreditar que o novo sempre vem?

Uma reflexão constante sobre como está e para onde vai o mundo é fundamental para a nossa adaptação, tanto pessoal quanto profissional, às novas situações que se apresentam. Precisamos estar atentos a elas, para termos mais clareza sobre o nosso papel na sociedade.

Temos que desenvolver competências, técnicas, humanas e sociais, que nos permitam viver de forma harmoniosa, sem esquecer que somos, também, agentes de mudanças.

Uma dessas competências, a qual considero como ponto de partida para o processo de transformação pessoal para o entendimento e adaptação aos novos cenários, é a capacidade de autoconhecimento.

Muitas pessoas não refletem sobre si mesmas e, por consequência, não se conhecem.

“Infelizmente, sempre é mais fácil avaliar os outros do que a nós mesmos”

Se estamos num congestionamento, ficamos irritados com a quantidade de gente que saiu às ruas com o seu carro, esquecendo que ¨nós também estamos em um carro e que estamos contribuindo para esse congestionamento¨.

No trabalho, nas situações do dia a dia vivemos avaliando a performance dos outros e, raramente, avaliamos a nossa.

Para adquirir essa capacidade de autoconhecimento, precisamos exercitar e transformar em hábito diário a autorreflexão e a autoavaliação.

Questione-se sempre. Lembre-se que as perguntas são as respostas.

Questione seus valores, suas crenças. Questione sobre os seus hábitos, sobre seus relacionamentos e sobre o seu papel no mundo.

Exercite a reflexão e a avaliação de suas competências.

Faça um exercício constante de identificação e análise sobre as mudanças que estão à sua volta.

Identifique quais competências você já possui para enfrentá-las, quais precisam ser aprimoradas e quais você terá que adquirir.

Não fique preso ao passado.

E aqui aproveito para mencionar mais um trecho da canção título e que, acredito, irá auxiliar nessa reflexão específica.

“minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos,

ainda somos os mesmos e vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos

como nossos pais;

nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não

você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”.

Lembre-se, sempre, que temos sim que aprender com as batalhas que lutamos no passado, mas, principalmente, temos que nos preparar para as batalhas que iremos enfrentar no futuro.

Por Gerson Kiste – Mestre em Administração, professor universitário, consultor de empresas, especialista em recursos humanos. Professor da disciplina de “Gestão de Pessoas” e da disciplina de “Coaching” no Curso de Especialização em Administração Industrial (CEAI), da Poli-USP e Fundação Vanzolini.

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