Se você fala de um conceito e não consegue desenhá-lo, provavelmente não sabe do que está falando

Se você fala de um conceito e não consegue desenhá-lo, provavelmente não sabe do que está falando

Filhos fazem cada pergunta… Enquanto esperávamos na fila da Montanha Russa do Incrível Hulk no Universal Studios Islands of Adventure, Helen, minha filha de oito anos, solta essa: Papai, o que é um DNA?

A fila passava por uma espécie de laboratório de mutação genética e o termo DNA estava escrito em diversos locais. Desenho a hélice dupla e mostro para Helen, explicando suas características e funções. Em menos de um minuto, ela entendeu a essência de, talvez, o conceito mais complexo da vida. Por isso, James Watson e Francis Crick não foram gênios apenas porque apresentaram a estrutura do DNA, mas também por fazê-la de uma forma visual (e em uma página!) permitindo que mesmo uma criança consiga entender sua lógica e funcionamento.

Quando se explica conceitos complexos por meio de imagens fáceis de serem compreendidas, isto não só eleva seu poder como ferramenta de comunicação e construção de conhecimento, como ainda é uma clara demonstração de que você domina tanto aquele assunto a ponto de ser simples sem simplificá-lo. Por isso, mesmo que intuitivamente, boa parte dos inovadores costuma desenhar seus conceitos complexos para que os demais consigam realmente compreender aquilo que é essencial na novidade proposta.

E isto vale para inovação em qualquer área do conhecimento humano. Sábia ou visionariamente, J. K. Rowling, por exemplo, rascunhou personagens e cenas enquanto escrevia a saga de Harry Potter no início da década de 1990. Isto permitiu depois que ilustradores, cenógrafos e outros artistas fossem muito fiéis à magia prevista por ela em Hogwarts.

Transcender conceitos complexos em figuras também foi um dos pilares que definiram o sucesso de Guerra nas Estrelas. Em 1974, muito provavelmente George Lucas teria produzido algo que seria muito parecido com Buck Rogers, Flash Gordon e Jornada nas Estrelas e estava incomodado, pois não conseguia traduzir tudo aquilo que imaginava para o seu filme de forma visual. Até que contratou o artista Ralph McQuarrie que levou a saga para uma galáxia muito, muito distante. Quem vê o trabalho de McQuarrie, percebe rapidamente a verdadeira força dos seus desenhos.

O desafio do pensamento e comunicação visual também sempre foi muito importante nos negócios inovadores.
Contemporâneos e amigos, Thomas Edison e Henry Ford também costumavam desenhar muito as ideias que ainda só existiam em suas mentes. Só assim, conseguiam explicar o que desejavam das suas equipes e comunicar suas inovações para investidores e parceiros.

E o que valia para as ideias malucas de Edison, Ford, Disney, continuou valendo para Steve Jobs, Akio Morita e agora Elon Musk, entre muitos outros. Apenas para citar alguns, os conceitos iniciais de negócios como Compaq, Southwest Airlines ou Twitter nasceram de conceitos visuais desenhados em simples guardanapos, o que derruba qualquer justificativa de que são necessários muitos recursos ou conhecimentos para desenhar de forma simples um conceito complexo.
Por isso, abuse desta abordagem. Em trabalhos acadêmicos, comece por desenhar seu problema de pesquisa. Nos negócios, desenhe a estratégia da sua empresa ou qualquer outro novo conceito que queira consolidar nela. O mesmo vale para os demais desafios da sua vida!

Comece com desenhos bem simples como recomenda Dan Roam. Em todas as situações, não é a qualidade do desenho que importa, mas a reflexão em si. Sempre que possível, interaja com outras pessoas como ensina Tom Wujec. A experiência se torna ainda mais poderosa. Depois, se ainda julgar necessárias, turbine com novas abordagens visuais como aponta o site Visual Literacy.

Mas se no final você continua falando de um conceito, mas não consegue desenhá-lo, mesmo de uma forma muito rudimentar, reflita se sabe mesmo o que está dizendo…

Por Marcelo Nakagawa

fonte: Blog do Empreendedor

__________________________

Sobre o autor

Marcelo Nakagawa é Professor na Fundação Vanzolini. É membro do conselho da Anjos do Brasil e da Artemísia Negócios Sociais. É colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME. É consultor de empreendedorismo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e Bradesco. É autor dos livros Empreendedorismo: Elabore seu plano de negócio e faça diferença (Ed. Senac, 2013) e Plano de Negócio: Teoria Geral (Ed. Manole, 2011) e co-autor de Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil (Ed. Evora, 2012), Sustentabilidade & Produção (Ed. Atlas, 2011) e Engenharia Econômica e Finanças (Ed. Elsevier, 2009) . É doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), mestre em Administração e Planejamento (PUC-SP) e graduado em Administração de Empresas (FEA-USP). Na Fundação Vanzolini, ministra aulas nos Cursos de Capacitação em Gestão da Qualidade e o curso Práticas de Liderança e de Gestão de Pessoas nas Organizações.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

__________________________

Quer receber os conteúdos e as novidades da Fundação Vanzolini no seu e-mail? Cadastre-se em nossa newsletter.

Comentários