O Lean poderia curar a Saúde?

O Lean poderia curar a Saúde?

Uma das atividades mais importantes da filosofia Lean é o Genshi Gembutsu. Esta expressão Japonesa pode ser traduzida como “vá ver”, ou ainda como costuma dizer meu pai – que tem mais de 50 anos de experiência no chão de fábrica – “tire a bunda da cadeira e vai lá ver o que está acontecendo!”.

A prática do Genshi Gembutsu traz inúmeras vantagens, mas a principal é a “pureza” das informações que se consegue amealhar: você não está lendo um relatório, não está interpretando algo que alguém lhe disse. Você está vendo com seus próprios olhos!

Assim sendo, posso dizer que em 31/3 (sexta-feira) tive uma oportunidade única para realizar um Genchi Gembutsu na área da Saúde: passei por uma cirurgia de correção de hérnia de hiato e refluxo esofágico.

Processo de Admissão

A cirurgia estava agendada para as 7h00 da manhã e meu médico solicitou que chegássemos ao hospital (unidade local de uma das maiores redes hospitalares do país) às 5h00, para o processo de admissão. Neste processo que teve 10 minutos de execução, foram revistos todos meus documentos (que já haviam sido apresentados na solicitação de autorização de procedimentos do convênio médico, no próprio hospital), preenchida uma segunda ficha (a primeira havia sido preenchida quando da solicitação da cirurgia) de anamnese (alergias, restrições, etc). O tempo total de espera na recepção do hospital foi de 1h e 14 minutos.

Em seguida, fui levado para uma sala de 3 leitos, onde troquei de roupa. Foi preenchida a terceira ficha de anamnese (com as mesmas perguntas da segunda). Esperei ali por uns 20 minutos e fui levado para a consulta com o anestesista, onde esperei mais 30 minutos. Respondi às perguntas do Dr°em 5 minutos e aguardei mais 30 minutos para ser levado à sala de cirurgia.

Cirurgia

Aproximadamente às 8h00 (segundo o médico disse à minha esposa), a cirurgia foi iniciada. Confesso que este foi o primeiro Genshi Gembutsu de “corpo presente” que realizei: Só posso lhes dizer que dormi muito bem e que o procedimento durou 2 horas! Nada mais a reportar! rs

Pós-Operatório

Já no quarto, sentia bastante dor nos ombros (fato normal para este tipo de cirurgia). Chamamos o médico que prescreveu um analgésico. O tempo de espera entre a prescrição e a aplicação do medicamento foi algo em torno de 3h .

Ao reclamarmos com a enfermeira sobre a espera, essa alegou que como o medicamento tinha que vir da farmácia e naquela hora do dia estavam em “troca de plantão”, esta demora era “um coisa normal”.

Alta Médica

Às 12h35 do sábado, meu médico me deu Alta. Contudo, eu somente poderia ir para casa depois de receber orientações do Fisioterapeuta e tomar mais um anti-inflamatório. Esperamos aproximadamente duas horas e meia para que isto acontecesse e recebêssemos a documentação de alta.

Considerações (do ponto de vista do paciente)

Admissão: Apesar de termos chegado com grande antecedência ao hospital – a sala de cirurgia e os profissionais (cirurgião & equipe, instrumentadora e anestesista) ficaram quase uma hora ociosos! (Das 7h00 às 8h00) Vale lembrar que, ao lado da UTI, o Centro Cirúrgico é um dos recursos mais caros de um hospital!

Anamnese: Por que tantas pessoas perguntam-me as mesmas informações, tantas vezes?

Pós-Operatório: Se as dores nos ombros são comuns neste tipo de cirurgia, por que o analgésico não estava prescrito de antemão? Por que um fato corriqueiro como a troca de plantões impacta tão negativamente o processo; a ponto de prejudicar o usuário final? Para alguém que sente dores, o tempo de aplicação/ação do analgésico é um valor fundamental!

Alta médica: O leito ficou ocupado por, pelo menos, 2 horas a mais do que o necessário. Em quanto poderíamos aumentar a disponibilidade de leitos se passássemos a economizar uma hora em cada processo de alta? Por que não começam a planejar a Alta no momento da Admissão do paciente, priorizando a visita do fisioterapeuta aos pacientes que terão alta médica?

Esta sucessão de fatos só vem comprovar a impressão que a população brasileira tem sobre nosso Sistema de Saúde.

O que dizem as pessoas?

Pesquisa patrocinada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) – com 2.002 pessoas entrevistadas em 141 municípios, entre os dias 1 e 4 de dezembro de 2016 – aponta que, para os brasileiros, o desemprego é o principal problema do país, com 43% das indicações.

Em segundo lugar, vem a preocupação com a Saúde, com 32% das indicações. Note-se ainda que a piora do desemprego impacta diretamente a área da Saúde, visto que, à medida que este aumenta, mais pessoas migram da Saúde complementar para a Saúde pública:

Entre janeiro de 2014 e julho de 2016, mais de 2 milhões de pessoas deixaram de contar com planos de Saúde. No médio prazo, esta situação será agravada pelo envelhecimento da população aliado aos crescentes custos de procedimentos/exames.

Mas quais seriam as alternativas? Normalmente, aponta-se a escassez de recursos (mão de obra especializada, equipamentos e instalações, por exemplo) como a principal causa deste quadro e consequentemente, a necessidade de maiores investimentos como solução.

Contudo, mesmo em países que investem na Saúde quantias substancialmente maiores que o Brasil (8% do PIB-2011), tais como os Estados Unidos (18% do PIB-2011), por exemplo, os números são desanimadores: em 2013, o número de óbitos de norte-americanos em virtude de erros médicos foi menor apenas que o das mortes decorrentes de ataques cardíacos (1ª causa) e câncer (2ª causa)!

Mas o Lean poderia curar a Saúde?

Porém, ao analisarmos o resultado de meu Genchi Gembustu, fica fácil notar que em nenhum momento os problemas ocorreram por falta de recursos, mas sim por falta de Processos Robustos, que poderiam ser desenvolvidos com excelente relação custo x benefício, através da aplicação do Lean Thinking.

Mais do que um desejo, nossa esperança é que iniciativas Lean na área da Saúde sirvam como remédio para um sistema que está gravemente doente!

E você? Tem experiências na área da saúde para compartilhar? Deixe seus comentários! Compartilhe este artigo! Ajude-nos a divulgar a filosofia lean!

Por Carlos Eduardo Moretti

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Sobre o autor
Carlos Eduardo Moretti
: Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com mais de 20 anos de experiência em melhoria de processos em autopeças, produção de alimentos, higiene pessoal, calibração de instrumentos de medição, tubos flexíveis, agronegócios, corretagem de seguros e outros Co-autor do livro “Toyota by Toyota: Reflections from the inside leaders on the techniques that revolutionized the industry”. Instrutor nos cursos de Lean Thinking da Fundação Vanzolini: Lean Manufacturing e Lean Service.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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