Como a ciência explica Steve Jobs e como usá-la (facilmente) ao seu favor

Como a ciência explica Steve Jobs e como usá-la (facilmente) ao seu favor

Anos depois de perdermos grandes empreendedores, descobrimos que seus legados mais relevantes não foram suas criações (estas vão para museus), mas seus processos criativos. A lâmpada de Thomas Edison foi importante, mas seu processo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) é utilizado pelas empresas até hoje. O modelo T de Henry Ford foi um dos maiores sucessos comerciais de todos os tempos, mas sua linha de produção ainda existe nas fábricas ao redor do mundo. Mickey Mouse ainda reina absoluto na empresa criada por Walt Disney, mas é a sua mesma técnica de contar estórias que permite que Anna e Elsa se tornem onipresentes, mesmo que por um breve espaço de anos.

Com Steve Jobs, a trajetória é a mesma, apesar de muitos ainda estarem fascinados com sua genialidade. Jobs dominava, mesmo que de forma inconsciente, técnicas que as ciências comportamentais vêm estudando há décadas. Mesmo que talvez não tenham o mesmo impacto, alguns pontos podem ser facilmente adotados por todos nós.

Reflita na capacidade que Jobs tinha para criar experiências amigáveis, seja no aspecto do produto ou na sua interação com o público. Agora, olhe as figuras abaixo e responda, sem pensar muito: quem é Kiki e quem é Bouba?

Como a ciência explica Steve Jobs e como usá-la (facilmente) ao seu favor

(Foto: PEGN)

Não vale continuar lendo o texto. Apenas defina: das figuras, quem é Kiki e quem é Bouba?

Se estiver entre as 95% ou 98% que compõem a maioria das pessoas do planeta, terá chamado a primeira figura de Bouba e a que parece uma estrela, de Kiki. As pessoas associam o formato arredondado à sonoridade, que, metaforicamente, também parece arredondada. A mesma relação vale para o formato de pontas e a sonoridade “pontiaguda” de Kiki. E qual das figuras parece mais amigável? Novamente, a quase totalidade das pessoas apontará Bouba como a mais amigável, já que a metáfora das pontas de Kiki pode “machucar”. Estranho, não? Não para Steve Jobs. Ele sempre foi obcecado em estudar como as pessoas percebiam as coisas e sabiamente criava metáforas como o desktop, o mouse ou mesmo a preferência pelo uso de cores claras (para que se pareçam com eletrodomésticos).

No que se refere a Kiki/Bouba, basta lembrar que Jobs era aficionado por cantos arredondados. Valia para tudo: equipamentos, ícones e até sonoridade dos nomes. Até hoje, vários concorrentes da Apple e outras empresas usam cantos quadrados e não se atentaram ao poder de Bouba. Mas a descoberta do poder das formas e metáforas, e especialmente de que figuras arredondadas parecem mais simpáticas e amigáveis, foi feita em 1929 pelo psicólogo Wolfgang Köhler, um dos pais da Psicologia da Gestalt. Entenda um pouco mais sobre como as metáforas e formas nos guiam assistindo à apresentação do escritor e jornalista James Geary sobre este assunto – e ganhe um ponto!

Outra característica admirada em Steve Jobs era sua criatividade. Há muitas abordagens que ajudam a explicar, pelo menos em parte, o poder criativo do co-fundador da Apple. Mas uma é especialmente simples. Se já leu um pouco mais sobre ele, sabe que uma das manias de Steve Jobs era fazer reuniões de trabalho caminhando. Outros empreendedores, como Mark Zuckerberg (Facebook) e Jack Dorsey (Twitter), também adotaram este método. Mas Jobs tomou gosto pelas caminhadas por necessidade. Quando ainda estava estudando no Reed College, em Portland, e não tinha dinheiro, costumava andar quilômetros só para se alimentar em um templo Hare Krishna, que oferecia refeições gratuitas. Depois, quando passou a se encontrar com o monge zen budista Kobun Chino Otogawa, conheceu o Kinhin, um método de meditação em que se caminha longamente. Suas extensas conversas com Kobun também eram feitas em caminhadas. E todas as vezes que precisava ter uma ideia ou lidar com um problema, Jobs saia para andar.

Há muitos estudos que demonstram que a técnica de Jobs é muito eficaz. Um dos mais recentes é o realizado pelos pesquisadores Marily Oppezzo e Daniel Schwartz. Andar faz com que o coração bata mais rápido, aumentando a circulação de oxigênio no cérebro. Só isto já aumenta a capacidade de raciocínio, memória e atenção. Mas caminhar também incentiva o pleno funcionamento dos dois lados do cérebro, integrando a criatividade e o raciocínio lógico, permitindo a geração de ideias mais inovadoras, porém factíveis. Por fim, a caminhada constante também promove a criação de novas conexões entre os neurônios, reduz o ritmo do envelhecimento do tecido cerebral, aumenta o volume do hipocampo (região crítica para a memória, principalmente a de longo prazo), aumenta o nível de estímulo de crescimento de novos neurônios, e também a interação entre eles. Se precisar de mais um motivo para tentar reuniões caminhando, veja a apresentação da Nilofer Merchant e receba outro ponto!

E, se Steve Jobs criava produtos inovadores e amigáveis, também sabia vendê-los com maestria. De alguma forma, conseguia fazer com que seus consumidores se sentissem melhor por escolherem os produtos da Apple. Mesmo sendo mais caro, muitos preferiam um computador Apple do que as dezenas de opções da Dell, por exemplo. Mas isso só aconteceu em sua segunda passagem pela empresa. Quando Steve Jobs retornou à Apple após ser demitido em 1985, encontrou a companhia inchada. Na área de produtos, havia dezenas de opções, e cada uma tinha versões com numerações que variavam entre 1.400 e 9.600. “Eu não consigo entender… Qual desses eu indicaria para um amigo comprar?” – perguntou à sua equipe. Decidiu reduzir a oferta para apenas quatro alternativas. É pessoa física e busca um desktop, então precisa de um iMac. Um notebook, então a escolha é um iBook. Precisa de um desktop para uso profissional, compre um PowerMac e seja feliz. Quer um notebook profissional, vai de Powerbook! As vendas da Apple dispararam! Todos estavam felizes com suas escolhas e isto influenciava seus amigos e colegas.

Como a ciência explica Steve Jobs e como usá-la (facilmente) ao seu favor

(Foto: PEGN)

A decisão de Jobs foi explicada anos depois pelo psicólogo Barry Schwartz em seu livro O Paradoxo da Escolha: Por que menos é mais. Ele explica que, em geral, pensamos que, quanto mais liberdade tivermos, melhor nos sentiremos. E quanto mais opções à nossa disposição, maior será nossa liberdade. Mas isso é uma falácia, pois quanto mais opções, maior será nossa angústia. Sempre ficaremos em dúvida sobre o que perdemos nas escolhas que não fizemos. Dessa forma, a conclusão do autor é: “Tenha menos opções e sinta-se melhor”. Quer entender um pouco mais sobre como ser feliz com menos? Assista esta apresentação do Barry Schwartz e ganhe mais um ponto!

É claro que Steve Jobs continuará sendo o que é. Da mesma forma, ninguém substituiu Edison, Ford ou Disney. Mas muitos empreendedores e empresas se beneficiaram das técnicas que eles desenvolveram e ganharam muitos pontos com isso!

Em seu discurso na formatura da Universidade de Stanford, Jobs resumiu sua vida: “Você não pode conectar os pontos olhando para frente. Só pode conectá-los olhando para trás. Assim, você deve acreditar que esses pontos, de alguma forma, o conectarão com o seu futuro… Essa abordagem nunca me deixou na mão e fez toda a diferença em minha vida”.

Por Marcelo Nakagawa

fonte: Revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios

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Sobre o autor

Marcelo Nakagawa é Professor na Fundação Vanzolini. É membro do conselho da Anjos do Brasil e da Artemísia Negócios Sociais. É colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME. É consultor de empreendedorismo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e Bradesco. É autor dos livros Empreendedorismo: Elabore seu plano de negócio e faça diferença (Ed. Senac, 2013) e Plano de Negócio: Teoria Geral (Ed. Manole, 2011) e co-autor de Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil (Ed. Evora, 2012), Sustentabilidade & Produção (Ed. Atlas, 2011) e Engenharia Econômica e Finanças (Ed. Elsevier, 2009) . É doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), mestre em Administração e Planejamento (PUC-SP) e graduado em Administração de Empresas (FEA-USP). Na Fundação Vanzolini, ministra aulas nos Cursos de Capacitação em Gestão da Qualidade e de Processos e o Liderança e Gestão de Pessoas.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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