Elimine a produção “à la Foie Gras” em sua organização

Elimine a produção “à la Foie Gras” em sua organização

Um estudo da LMC Automotive mostrou que nos próximos 7 anos, a capacidade total de produção de veículos na América do Sul excederá a demanda, em aproximadamente, 40%. Efeitos desta “oferta” de capacidade já podem ser sentidos, não só no mercado automotivo, mas também nos demais seguimentos da economia: bancos de horas, férias coletivas, layoffs e demissões em massa, sem falar no incontável número de organizações recorrendo a bancos, ou em situações mais extremas, sendo forçadas a encerrar suas atividades. Uma das causas raiz desta e de outras situações semelhantes, reside no paradigma de que para aumentar o resultado financeiro da organização é necessário aumentar suas vendas. Justificam-se assim os gigantescos investimentos em novas unidades fabris, máquinas de última geração e contratações de mão de obra, por exemplo. Contudo, sob a perspectiva do Lean Thinking, este paradigma não faz tanto sentido: é possível aumentar o lucro, sem forçosamente aumentar o volume de produção!

Tomemos como exemplo os volumes de veículos vendidos pelos três maiores players mundiais deste mercado, no ano de 2014:

  1. Volkswagen: 9,92 milhões
  2. Toyota: 9,82 milhões
  3. GM: 8,02 milhões

Vejamos agora como a quantidade vendida nem sempre é tão importante para obter-se lucro: Somando-se os volumes vendidos pela Volkswagen e GM chegamos a 17,94 milhões de veículos, aproximadamente, duas vezes o volume vendido pela Toyota. Somando-se agora os lucros[1] das mesmas companhias:

Lucro Toyota (US$ 18,8 Bilhões) > Lucro Volkswagen (US$ 12,0 Bilhões) + Lucro GM (US$ 5,3 Bilhões)

Analisando-se de forma isolada, conclui-se que o lucro médio por unidade vendida pela Toyota (US$ 1.915) é 58% maior que o da Volkswagen (US$ 1.210) e 190% maior que o da GM (US$ 661)!

Da busca e eliminação sistemáticas de desperdícios, ao senso comum de que os processos sempre podem e devem ser otimizados, são inúmeras as diferenças entre a empresa japonesa e suas concorrentes. Porém, a mais significativa é a gestão da produção.

Analogamente ao processo de obtenção do Foie Gras[2], a produção nas empresas convencionais é “empurrada”, isto é, não há uma conexão direta entre as vendas e a quantidade produzida. Em outras palavras, não existe o “venda 1 e produza 1”. Por outro lado, no Lean Thinking uma das regras básicas é “produzir apenas o que o cliente quer, quando o cliente quer, na quantidade que o cliente quer”. Em outras palavras, a produção é “puxada” pelo cliente, evitando assim a geração de estoques. Baixos níveis de estoque “forçam” a redução de níveis de refugos e retrabalhos, o aumento da eficiência global de equipamentos e do grau de multifuncionalidade da mão de obra, a disseminação da capacidade de solução de problemas entre os colaboradores, entre outros. O altíssimo nível de produtividade da Toyota foi alcançado através de décadas de dedicação, num processo disparado por conta das dificuldades enfrentadas face à recessão vivida pelo Japão, no pós-guerra.

Especialistas preveem que a atual crise brasileira durará, pelo menos quatro ou cinco anos. Não seria um ótimo momento para abandonar a produção “à la Foie Gras” e partir para a produção Lean?

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Por Carlos Eduardo Moretti

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Sobre o autor
Carlos Eduardo Moretti
: Engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com mais de 20 anos de experiência em melhoria de processos em autopeças, produção de alimentos, higiene pessoal, calibração de instrumentos de medição, tubos flexíveis, agronegócios, corretagem de seguros e outros Co-autor do livro “Toyota by Toyota: Reflections from the inside leaders on the techniques that revolutionized the industry”. Instrutor nos cursos de Lean Thinking da Fundação Vanzolini: Lean Manufacturing e Lean Service.

[1] Números obtidos em Janeiro/2015 – www.forbes.com/global2000/list/

[2] O foie gras (pronúncia “fuá-grá”) – termo que em francês significa “fígado gordo” – é o fígado de um pato ou ganso que foi superalimentado. Junto com as trufas, o foie gras é considerado uma das maiores iguarias da culinária francesa. Possui consistência amanteigada e sabor mais suave em relação ao fígado normal de pato ou ganso. Fonte: Wikipedia

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