Empreender no Brasil: Como fazer o certo também dá certo mesmo em um país incerto

Artigo Empreendedorismo
Elas tentaram ser normais. Fizeram uma boa faculdade de administração e conseguiram bons empregos em boas empresas. Mariana Penazzo trabalhou um ano em um dos melhores bancos de investimentos do país, entretanto não se encontrou ali. Outros sete meses em uma consultoria tributária e partiu. Mais um ano e meio em uma empresa aérea para ter certeza de que ela não nasceu para ficar em um cubículo. Sua amiga de faculdade, Barbara Almeida até que aguentou mais tempo quieta em um mesmo emprego. Mas depois de cinco anos trabalhando (muito) para os outros decidiu se que era para trabalhar tanto, que pelo menos fosse para si própria.

Naquele momento, Mariana já tinha pedido demissão e começado um negócio em casa, fazendo docinhos para vender. Já tinha deixado de ser normal, pois ter feito uma faculdade de negócios de primeira linha e largar um emprego muito bem remunerado para ficar misturando farinha, ovos e açúcar na cozinha de casa para ganhar uns trocados que equivalia apenas ao valor do seu vale-refeição dos tempos de grande empresa, era algo difícil para os mais próximos entenderem. O rompante de loucura durou pouco e ela desistiu do negócio, mas não abandonou o sonho de empreender um negócio próprio.

Para empreender direito desta vez, elas sabiam que deveriam fazer muito bem o dever de casa para saber o que era certo fazer. E assim fizeram:

– Sócias complementares: Mesmo tendo feito o mesmo curso e a mesma faculdade, elas tinham perfis complementares de gestão. Uma era mais estratégica, analítica e financeira. A outra, mão-na-massa, operacional, vendedora.

– A melhor ideia de negócio: começaram a se reunir periodicamente para identificar e analisar oportunidades. Até que, meio por acaso, veio a ideia de alugar vestidos. Barbara tinha vários e, de vez em quando, Mariana emprestava um. Por que não aluga-los?

– Modelo de negócio já demonstrado: Aluguel de vestidos já era um negócio tradicional, mas alugar itens de estilistas famosos e ainda via internet era algo inédito no Brasil, mas elas descobriram que já havia iniciativas muito bem sucedidas na Inglaterra e Estados Unidos.

– Validação intensiva da ideia e modelo de negócio: Conversaram muito com potenciais clientes, parceiros, fornecedores, consultores, professores, mentores e especialistas de diversas áreas até terem certeza absoluta do que era o certo a fazer.

– Aproveitamento de todos os feedbacks, principalmente os negativos: A cada objeção que recebiam, pensavam em uma ou mais soluções.

– Planejamento detalhado de cada fase: Elaboraram um plano de negócio com mais de 60 páginas com um cuidado minucioso do planejamento financeiro.

– Profissionais desde o início (em cada detalhe): Como vendiam mais do que estilo, mas segurança investiram muito para os clientes, fornecedores e parceiros também tivessem esta mesma percepção. O site, desde a primeira versão, parecia extremamente profissional. O showroom para o atendimento presencial era bem localizado. E o atendimento sempre foi bem treinado.

– Aproveitamento da rede de relacionamento: Ambas tinham uma grande rede de relacionamento desde a época da faculdade que foi ampliada com as experiências profissionais. A rede foi acionada para atrair os primeiros clientes e parceiros.

– Atração do investidor correto: Tendo feito corretamente todos os passos, o primeiro investimento, de R$ 1 milhão, veio em poucos meses. Mas tiveram a capacidade de mapear os investidores e escolher um que mais poderia contribuir para o crescimento acelerado em função do seu conhecimento do mercado de moda no Brasil.

– Crescimento acelerado: Os trinta e poucos vestidos no início viram trezentos e agora três mil. Sabem que o modelo de negócio é copiável e daí a certeza de se consolidarem pela variedade e qualidade no atendimento.

Mariana e Barbara, fundadoras da Dress & Go, o maior site de aluguel de vestidos do Brasil, não só fizeram as coisas certas, elas repetiram um dos maiores ensinamentos de Coco Chanel, para quem o sucesso é frequentemente atingido por aqueles que sabem que o fracasso é evitável.

Por Marcelo Nakagawa

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Sobre o autor

Marcelo Nakagawa é Professor na Fundação Vanzolini. É membro do conselho da Anjos do Brasil e da Artemísia Negócios Sociais. É colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME. É consultor de empreendedorismo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e Bradesco. É autor dos livros Empreendedorismo: Elabore seu plano de negócio e faça diferença (Ed. Senac, 2013) e Plano de Negócio: Teoria Geral (Ed. Manole, 2011) e co-autor de Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil (Ed. Evora, 2012), Sustentabilidade & Produção (Ed. Atlas, 2011) e Engenharia Econômica e Finanças (Ed. Elsevier, 2009) . É doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), mestre em Administração e Planejamento (PUC-SP) e graduado em Administração de Empresas (FEA-USP). Na Fundação Vanzolini, ministra aulas nos Cursos de Capacitação em Gestão da Qualidade e de Processos e o Liderança e Gestão de Pessoas.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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