Equilíbrio nas contas de famílias e indivíduos

Gestão Financeira
O tema finanças pessoais tem sido amplamente explorado pela mídia, tanto em programas televisivos como na mídia impressa, com destaque para dezenas de livros sobre o assunto. Boa parte dessa literatura encontra-se na categoria intitulada “autoajuda”, sendo que alguns “gurus” do assunto apresentam “fórmulas mágicas” de enriquecimento, bastante questionáveis e desprovidas de fundamentação científica. A abordagem predominante dá-se em problemas orçamentários, principalmente dívidas, ou então nas diferentes opções de investimentos financeiros, sem falar nas fórmulas para chegar à tão sonhada independência financeira ou no simbólico “meu primeiro milhão”. Vamos aqui apresentar uma visão mais ampla das finanças pessoais, que denominamos Gestão Financeira Pessoal (GFP).

A GFP foca a gestão de recursos ao longo do tempo, buscando um equilíbrio sustentável (no presente e para o futuro) entre sonhos, valores e recursos, bem como nos meios possíveis para a obtenção e manutenção da qualidade de vida, conforme entendida ou percebida pelo indivíduo ou pela família. Nesse sentido, o indivíduo ou família são considerados como entidades produtivas que geram recursos financeiros (receitas) e consomem recursos (despesas).

Do ponto de vista estritamente financeiro, a qualidade de vida envolve a garantia dos recursos financeiros necessários para a realização de sonhos e desejos, juntamente com o estabelecimento de recursos para as necessidades presentes e futuras, previstas e imprevistas. O principal desafio envolvido é o uso sustentável dos recursos financeiros disponíveis, ou seja, fazer uso dos recursos no presente, sem comprometer o uso deles no futuro.

A GFP envolve duas dimensões: na primeira, coloca-se o tempo, considerado em termos de presente e futuro. Na segunda, coloca-se o grau de previsibilidade, em termos de eventos que podem ou não ser planejados ou previstos. Forma-se assim um quadro no qual os elementos da Gestão Financeira Pessoal podem ser avaliados e planejados. A Gestão do Orçamento (receitas e despesas) constitui a pedra fundamental da GFP, pois versa sobre a disponibilidade de recursos financeiros para as demais áreas, mas é uma atividade relacionada ao tempo presente e a eventos que podem ser planejados. Nessa categoria encontra-se também a gestão do patrimônio e a gestão tributária. No tempo futuro e associada a eventos que podem ser planejados encontra-se a gestão de investimentos, que foca o crescimento patrimonial e realização de sonhos no longo prazo, e a gestão previdenciária (aposentadoria). No presente e relacionada a eventos não planejados, encontra-se a gestão de riscos, que envolve o planejamento emergencial, relacionado a reserva financeira e crédito para emergências, e o planejamento securitário (saúde e bens). No futuro e relacionado a eventos não planejados encontra-se o planejamento sucessório, que envolve o planejamento de seguro de vida, transmissão de patrimônio e impostos sobre herança.

Um olhar mais atento sobre a situação financeira das famílias brasileiras nos últimos anos mostra que estão longe da visão de equilíbrio da GFP. A recente Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC – janeiro de 2013), realizada pela Confederação Nacional do Comércio, mostra que mais de 60% das famílias pesquisadas estão endividadas, com comprometimento médio de renda em torno de 30%.

Nesse contexto, percebe-se que as famílias desenvolveram uma visão imediatista das suas finanças: consumir no presente, com crédito, sem considerar o comprometimento dos recursos para emergências ou para o crescimento patrimonial e realização de sonhos de longo prazo, como a casa própria, por exemplo. A causa pode estar não somente no desconhecimento dos princípios elementares de GFP, mas também nos aspectos psicológicos envolvidos nas tomadas de decisão, que, como mostram muitos casos de endividamento, não são de forma alguma racionais.

A GFP pode ser praticada basicamente de duas formas: a família ou indivíduo podem optar por realizar sua própria gestão financeira (autogestão) ou então é possível contratar um planejador financeiro profissional para realizá-la. A maior dificuldade na prática da autogestão é o envolvimento emocional, que cria vieses psicológicos que comprometem a tomada de decisão racional. Em relação aos serviços profissionais, deve-se atentar para a adequação do profissional a modelos de certificação como o CFP™ – Certified Financial Planner ou à norma ISO 22222 – Requirements for Personal Financial Planners.

A prática da Gestão Financeira Pessoal envolve uma perspectiva holística das finanças pessoais, na qual deve haver um equilíbrio entre a satisfação de desejos e necessidades presentes e futuras, em cenários econômicos que envolvem riscos e horizonte de planejamento variável. Entretanto, tal prática ainda não está bem constituída no Brasil. A profissão de planejador financeiro ainda é pouco difundida e os princípios de GFP, considerando a perspectiva holística abordada aqui, são praticamente desconhecidos das famílias brasileiras.

Quadro – Aspectos da Gestão Financeira Pessoal

Quadro – Aspectos da Gestão Financeira Pessoal

Por Rodrigo Franco Gonçalves | Fonte: Revista Em Foco

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Sobre o autor
Rodrigo Franco Gonçalves – Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade de São Paulo (1999), mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Paulista (2004) e doutorado em Engenharia (Engenharia de Produção) pela Universidade de São Paulo (2010). Tem experiência na área de Engenharia de Produção, projeto e desenvolvimento de sistemas e inovação tecnológica. Atua nas seguintes áreas: gestão da produção, engenharia econômica e financeira, sistemas de informação, gestão do conhecimento, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor titular do programa de pós-graduação stricto sensu em Engenharia de Produção da UNIP e professor de pós-graduação lato sensu da POLI USP e Fundação Vanzolini.

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