Finanças pessoais afetam o crescimento econômico

Finanças
O papel das finanças pessoais

O objetivo da gestão financeira pessoal é garantir que as famílias possam atingir seus sonhos e obter qualidade de vida, no que depender de aspectos financeiros, por meio de um equilíbrio entre os recursos financeiros disponíveis, no presente e para o futuro.

Entretanto, o que se observa é que muitas famílias brasileiras estão longe desse equilíbrio. O tão falado crescimento da renda das famílias e a ascensão da classe C, sem noções básicas de finanças pessoais, levaram ao uso inconsequente do crédito, resultando em altos índices de endividamento e inadimplência. Embora ganhando mais, as famílias brasileiras ficaram mais pobres, assumindo dívidas com juros elevados para adquirir serviços e bens de alta depreciação em vez de ativos que proporcionam crescimento real do patrimônio. O crédito que pode no futuro contribuir para o aumento da receita e crescimento patrimonial, como o crédito educativo, o importantíssimo microcrédito produtivo ou mesmo o crédito imobiliário, perdeu espaço para o crédito de consumo imediatista.

Em termos de realização dos sonhos, a situação das famílias brasileiras não é das melhores. Os estudos em finanças pessoais mostram que as famílias brasileiras têm três sonhos principais: a casa própria, o negócio próprio e o carro novo. Desde 2008 os imóveis no Brasil vêm apresentando índices de valorização acima de qualquer outro ativo no mundo, chegando próximo a 200% em algumas cidades. Vê-se assim que o sonho da casa própria fica mais distante, uma vez que a renda da população nem de longe cresceu nessa proporção.

Por conta do comprometimento da renda com o pagamento das prestações e inexistência de reservas financeiras, as famílias apegam-se ao mais seguro e confiável salário, garantido pelo emprego com carteira assinada, em vez de aventurar-se pelo arriscado caminho do negócio próprio. Assim, a força impulsionadora das microempresas para os investimentos da economia fica comprometida.

A realização dos sonhos cai, então, sobre o carro novo, mais acessível e de fácil financiamento. Com isso, a desvalorização do carro usado fica mais acentuada, o que torna a perda patrimonial das famílias ainda maior.

Perda para as empresas

Outro reflexo negativo é notado na produtividade das empresas. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que um trabalhador com problemas financeiros custa em média 7 mil dólares por ano para a empresa, em termos de perdas totais de produtividade. A perda direta é em média de 15 minutos diários, por conta do absenteísmo e do desvio das atividades de trabalho para cuidar de problemas financeiros. O restante da perda de produtividade deve-se ao estresse gerado pelos problemas financeiros. Com vistas a este problema, algumas empresas têm oferecido programas de finanças pessoais para seus colaboradores.

O que se percebe é que o crescimento da economia por meio do consumo, com crédito, relaciona-se a uma visão imediatista das finanças das famílias, que tendem a esgotar os recursos para os objetivos de longo prazo. Por outro lado, o crescimento da economia focado nos investimentos relaciona-se a uma visão de longo prazo, tanto por parte das famílias como do setor produtivo.

Algumas iniciativas de educação financeira procuram orientar não somente para o uso responsável do crédito, mas também para a importância da construção de poupança e previdência, entre outros elementos de finanças pessoais. A existência de poupança por parte das famílias favorece a disponibilidade de recursos para os empréstimos voltados ao setor produtivo.

Por meio da gestão financeira pessoal busca-se um equilíbrio entre o uso de recursos financeiros para consumo no presente, que mantém a demanda agregada, e uso deles para o futuro, seja na forma de poupança, previdência ou mesmo de crédito educativo, produtivo e imobiliário, que promovem os investimentos da economia no longo prazo.

Esta parece ser a fórmula ideal: um crescimento sustentável da economia aliado à qualidade de vida das famílias, sem exageros. Retoma-se assim uma antiga máxima latina: in medio virtus. A virtude está no meio termo.

Por Rodrigo Franco Gonçalves | Fonte: Revista Em Foco

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Sobre o autor
Rodrigo Franco Gonçalves – Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade de São Paulo (1999), mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Paulista (2004) e doutorado em Engenharia (Engenharia de Produção) pela Universidade de São Paulo (2010). Tem experiência na área de Engenharia de Produção, projeto e desenvolvimento de sistemas e inovação tecnológica. Atua nas seguintes áreas: gestão da produção, engenharia econômica e financeira, sistemas de informação, gestão do conhecimento, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor titular do programa de pós-graduação stricto sensu em Engenharia de Produção da UNIP e professor de pós-graduação lato sensu da POLI USP e Fundação Vanzolini.

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