Indústria automobilística e a gestão sustentável

Artigo - Gestão SustentávelNo início da década de 1990, pesquisei as relações de fornecimento no complexo automobilístico brasileiro. O tema das redes de cooperação produtiva era então quase um desconhecido e esse complexo industrial chamava a atenção por suas redes de subcontratação. Desverticalização e terceirização tornaram-se desde então palavras-chave. A estratégia de comprar de fornecedores ao redor do mundo pelo melhor preço (“global sourcing“) espalhou-se nas montadoras do ABC como decorrência do bê-á-bá da globalização no Brasil: a abertura do mercado brasileiro no início dos anos 90 levou os gigantes do setor automobilístico brasileiro a se defrontarem diretamente com os principais concorrentes internacionais. Era preciso então implantar novas formas de gestão de fornecedores.

Ao tradicional esquema das cadeias produtivas e cadeias de valor há muito se percebeu ter que adicionar a dimensão das redes: as complexas relações de fornecimento que moldam cada etapa da produção. Dentre as muitas inovações da indústria automobilística, destacaram-se os novos tipos de relações entre montadoras e seus fornecedores de primeiro nível – os sistemistas. O sistemista é uma empresa responsável pela montagem de um grande sistema do veículo, o motor, por exemplo.

Às grandes montadoras, cabe juntar os sistemas e fazê-los andar, ou seja, gerar o automóvel. A implantação desse conceito aumentou a responsabilidade e o comprometimento entre o fornecedor e as empresas automobilísticas. Para tanto, foi necessário expandir para toda a rede de fornecimento, ao longo de toda a cadeia produtiva, os métodos da produção ágil, enxuta e flexível (“lean”). A busca da qualidade por toda a empresa e por cada empresa envolvida nessa teia era um imperativo, ao lado do aumento da produtividade.

Algumas montadoras já buscam produzir de acordo com as exigências de ecoeficiência nas novas unidades.

Mas, sob os ventos da sustentabilidade socioambiental, novos desafios se colocam para essa indústria – e para todas as outras. A qualidade é pré-requisito. A busca da sustentabilidade por toda a empresa e por todas as empresas é hoje, por enquanto, um diferencial. Quase duas décadas depois, voltei novamente os olhos para o complexo automobilístico – desta vez para pesquisar como a sustentabilidade vem sendo incorporada nas práticas dessa cadeia produtiva.

O estudo do conjunto das empresas que compõem esse complexo industrial (montadoras e toda a sua respectiva cadeia de fornecedores) revelou que as ações que visam à gestão ambiental e à responsabilidade social são, em geral, tratadas de forma isolada. Não são integradas à estratégia corporativa das organizações. A maioria das empresas encontra-se, ainda, posicionada em uma fase incipiente quando comparada aos padrões de classe mundial. Por outro lado, observa-se que, na implantação de novas unidades operacionais, as montadoras já buscam definir os processos de produção alinhados às exigências da produção mais limpa e de ecoeficiência, com ações dirigidas para maior economia de materiais e de energia e enfatizando os aspectos da reciclagem.

A difusão de práticas de sustentabilidade em toda a cadeia de produção mostra-se em estágio inicial para a grande maioria das empresas. Algumas montadoras exigem a certificação ISO 14.001 (Gestão Ambiental) e impõem a proibição de utilização de trabalho infantil em suas operações e de seus fornecedores. Mas a preocupação que ainda norteia os principais agentes desta cadeia produtiva recai, de forma preponderante, sobre a ameaça dos fabricantes dos outros países emergentes, como China, Índia e México. O que ainda não se vê com clareza é que a sustentabilidade é condição para a competição em nível mundial.

Já tive a oportunidade de apresentar esses resultados na Itália e na França, que nos trazem bons exemplos. A Europa destaca-se no cenário da indústria de tratamento do fim da vida de vários produtos, dentre eles automóveis, bens eletrônicos e materiais de embalagem. No caso específico da reciclagem de automóveis, há ainda muitas oportunidades, pois, embora se saiba que esse bem apresenta alto potencial de reciclabilidade (95%), até mesmo nos Estados Unidos apenas 75% de cada carro passa por tal processo – e isso já representa uma movimentação de US$ 14 bilhões por ano. Trata-se, decerto, de uma grande oportunidade, principalmente para as pequenas e médias empresas.

O Brasil tem também liderado grandes inovações sustentáveis, como o uso do biodiesel e do etanol produzido não só a partir da cana. Em 2010 o número de veículos leves produzidos com motor flex já atingiu 86% do volume total produzido. Mas há que se considerar, também, a emergência dos veículos de motor elétrico e os híbridos. Vide, a propósito, a recente experiência da implantação do serviço compartilhado de aluguel de carros elétricos (“blue car”) pela prefeitura de Paris, programa que visa a propiciar maior mobilidade urbana, contribuindo com a diminuição do trânsito e da poluição e com a conservação de energia.

Do lado do produto que chega ao consumidor, ficam novos desafios. Mas antes disso, também há uma longa estrada. Como destaquei, muitas atividades antes desenvolvidas pela empresa montadora são repassadas para os fornecedores e isso provoca uma redução de custos para o produtor de veículos. Essa redução é devida, dentre outros fatores, pelo menor salário normalmente pago pelos fornecedores aos seus trabalhadores. Como ficam então as questões da responsabilidade social, das externalidades negativas, do trabalho decente? Fica a expectativa de que uma pavimentação de práticas sustentáveis cubra toda a cadeia produtiva que está por trás das vitrines – mas que pode ser mostrada e colocar as empresas que inovem na dianteira das preferências dos consumidores. A ecoinovação precisa contaminar as múltiplas frentes, de dentro para fora de cada empresa.

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Sobre o autor

João Amato Neto – Professor Titular da POLI-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), no Departamento de Engenharia de Produção. Foi professor convidado no Politecnico di Milano (Itália) e pesquisador visitante na Universidade de Aachen (Alemanha). Pós-doutor em Economia e Administração de Empresas pela Università Ca Foscari di Venezia (Itália). Especialista em ISO 14.000 (Sistemas de Gestão Ambiental) pela Fundação Vanzolini. Autor de artigos científicos sobre sustentabilidade publicados em livros e anais de congressos em Portugal, Inglaterra, França e Brasil. E coordenador dos cursos: Pós-graduação em Administração Industrial (CEAI)Sustentabilidade na Cadeia Produtiva da Fundação Vanzolini.

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