Notícia

Pesquisador do Grupo CONECTICIDADE comenta sobre a tragédia em Brumadinho

Professor Moacyr da Graça, membro do CONECTICIDADE, Laboratório de Cidades, Tecnologia e Urbanismo do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (PRO – POLI-USP), que conta com o apoio da Fundação Vanzolini em suas atividades, publicou no site do PRO um texto sobre a tragédia ocorrida em 25 de janeiro na cidade de Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Confira a publicação:

A morte dos ativos!

A engenharia tem por finalidade criar soluções para a melhoria da qualidade de vida e produtividade das atividades humanas.

A ação da engenharia consiste em criar facilidades para a sociedade.

A materialização deste esforço acontece com a produção de ativos para utilização nos mais diversos setores de atividade humana.

Exemplos são:

  • Ativos lineares: estradas, redes de água, redes de esgotos, galerias de águas, pluviais, redes elétricas, telefonia, etc..
  • Ativos verticais: indústrias, edifícios, centrais elétricas, , hospitais, escolas, centros esportivos,
  • Ativos móveis: mobiliário, equipamentos mecânicos, elétricos, eletrônicos, etc…

Tudo aquilo que se constrói passa por um período de vida que chamamos de ciclo de vida dos ativos.

As fases claras dos ciclos de vida são: Identificação de necessidades, Concepção, Projeto, Industrialização, Operação e utilização e finalmente o Descarte.

Ocorre que temos observado que a origem dos acidentes ou desastres pode estar em qualquer uma destas fases.

Quanto mais distante do início, mais difícil se torna a identificação de responsabilidades.

A depreciação e obsolescência dos ativos requer muita atenção pois, à medida que o tempo passa, aumentam os riscos na fase de operação e manutenção.

A consequência da gestão inadequada e miopia na percepção da exaustão dos recursos físicos (usualmente por razões financeiras) pode ser nefasta.

Tanto quanto nós certos ativos perdem sua capacidade produtiva tornando-se em riscos reais e verdadeiros para os indivíduos e para a sociedade.

Ocorre que a Gestão do Ciclo de Vida dos ativos é uma atividade negligenciada em muitas organizações.

A postura reativa, não é a mais adequada e pode representar alto risco para sociedade, com perda de vidas e fortes impactos financeiros nas organizações.

Acidentes ocorrem por razões diversas e viver é assumir riscos.

Corremos riscos quando viajamos por estradas, quando tomamos água de redes públicas, quando nos alimentamos, etc..

A sociedade cria instrumentos capazes e eficazes para mitigação de riscos e é consciente da impossibilidade de elimina-los.

Os meios utilizados pela sociedade para se proteger destes riscos são: Legislação, Regulamentação, Normalização e Guias.

A falta de observância torna o infrator em responsável pelos danos e suas consequências.

Ocorre que tanto na gestão pública quanto no ambiente corporativo a gestão de ativos quanto a gestão de facilidades (*) tem sido negligenciada.

Exemplos claros são acidentes com pontes e viadutos, desabamentos, e ruptura de barragens com Mariana e Brumadinho.

A palavra que entendo como aplicável é falta de controle adequado dos ativos e facilidades de infraestrutura e corporativas.

Isto pode ser expresso por gestão inadequada dos ativos e dos complexos de ativos que denominamos facilidades construídas.

O mundo moderno tem tratado estes assunto de maneira mais profissional. Expressão disto é a publicação recente das normas ISO 55.001: 2014 para Gestão de Ativos e ISO 41.001:2018 para Gerenciamento das facilidades construídas.

Tais atividades são internacionalmente conhecidas como Asset Management e Facility Management.

Entre estes existem inúmero instrumentos de apoio à melhoria da tomada de decisões relativas a ativos e facilidades.

Exemplo disto é o “Guidelines for retirement of dams and hydroelectric facilities” publicado em 1997 pela ASCE-Americam Society of Civil Engineers.

A Certificação Normativa é um dos instrumentos criado pela sociedade para a mitigação de riscos, aumento do controle e da colaboração para a segurança da sociedade e proteção do meio ambiente.

Que não tenhamos mais “acidentes” desta natureza no Brasil.

De nada adianta regulamentação sem efetiva utilização.

Precisamos ter profissionalismo em todos os setores.

O Brasil precisa aumentar o nível de maturidade de gestão pública e corporativa capacitando e profissionalizando as atividades desta natureza.

Chega de Marianas e Brumadinhos!

(*) Coleção de ativos construídos, instalados ou estabelecidos para atender propósitos de uma organização pública ou privada.

Prof. Dr. Moacyr E. A. da Graça
Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
Departamento de Engenharia de Construção Civil

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