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Certificação AQUA e PBE-Programa Brasileiro de Etiquetagem são concedidos à residência em Piracicaba

Edição: Alzira Hisgail

Nessa entrevista, o destaque é a Residência Verde, em Piracicaba, que tem como ênfase um projeto voltado para as necessidades de seus futuros usuários – um casal de idosos que receberá filhos e netos aos finais de semana. Uma casa projetada, no interior de São Paulo, visando a sustentabilidade e a acessibilidade para proporcionar o convívio harmonioso entre as pessoas, num ambiente construído saudável, confortável e de baixo impacto ambiental. O resultado será, quando construída, a obtenção dos melhores desempenhos em termos de conforto, saúde, economias, meio ambiente e durabilidade ao longo de toda a sua vida útil. Tudo isso de acordo com as exigências da Certificação AQUA, criada pela Fundação Vanzolini, e do PBE- Programa Brasileiro de Etiquetagem.

O que é o AQUA (HQE) para residências?

Manuel Carlos Reis Martins (Fundação Vanzolini – Certificação): O HQE – Haute Qualité Environnemental internacional, de origem francesa, foi adaptado para o Brasil pela Fundação Vanzolini e professores da POLI-USP, considerando nosso clima, legislação e normas técnicas, e cultura, resultando no AQUA – Alta Qualidade Ambiental. O objetivo do Processo AQUA-HQE é que os projetos proporcionem o convívio harmonioso entre as pessoas, num ambiente construído saudável, confortável e de baixo impacto ambiental. Para isso, requer uma mudança de cultura na construção civil, particularmente, no projeto e construção de residências. A partir do pensar o projeto é necessário o planejamento e gestão integrados, considerando na definição do projeto o contexto do empreendimento e seu entorno e as necessidades dos usuários, permitindo seguir com segurança para as etapas de projeto e construção até a entrega e incentivando a escolha das melhores soluções sustentáveis sob os enfoques social, ambiental e econômico. Esse processo foi amplamente adotado na Residência Piracicaba, resultando num projeto que terá, quando construído, os melhores desempenhos em termos de conforto, saúde, economias, meio ambiente e durabilidade ao longo de toda a sua vida útil. 

Qual a diferença para os modelos referenciais aplicados em edifícios residenciais, comerciais e de infraestrutura?

Martins: Os princípios de planejamento e gestão e desempenho focado na pessoa e no meio ambiente, com economia, são os mesmos: conforto, saúde e baixo impacto ambiental. Nos edifícios, os critérios de desempenho são semelhantes àqueles das casas, embora o modo de uso tenha suas particularidades, interferindo, assim, nas soluções relativas às áreas comuns ou nos efeitos de uma unidade em outra contígua. O que difere bastante, no caso das infraestruturas, é a escala. Podem ser lineares, como rodovias, metrôs, ferrovias, hidrovias, linhas de transmissão ou localizadas, como portos, aeroportos, estações rodoviárias, ferroviárias e metroviárias, aéreas ou subterrâneas, plantas de produção de energia, parques logísticos, entre outras. É, também, diferente pela sua natureza, o modo como as pessoas interagem com as infraestruturas, como usuários, vizinhos ou colaboradores.

Nos dois casos, sempre com o foco principal na qualidade de vida das pessoas, a redução dos consumos de energia, água, recursos naturais e de emissão de gases efeito estufa, poluentes aéreos, líquidos e sólidos são objetivos que resultam em economias para o usuário e para o poder público. Esses reduzem as necessidades da expansão dos sistemas de saneamento, energia, gestão de resíduos, e outros, contribuindo para diversos dos ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Quais as diferenças de um projeto sustentável em relação a um projeto convencional?

Mirtes Luciani (projeto de arquitetura): Sabemos que todas as atividades humanas, não só as industriais ou urbanas, afetam o complexo equilíbrio da Natureza. No entanto, a construção civil tem papel de destaque neste processo. Em média esta atividade consome, no plano global, em torno de 45% de energia, 15% de água; gera 40% de resíduos e produz 25% das emissões de CO². 

É de fundamental importância buscar a redução e otimização do consumo de materiais e energia, dos resíduos gerados, a preservação do ambiente natural e a melhoria da qualidade do ambiente construído. Sustentável é um conceito nascido na necessidade de se encontrar um equilíbrio para o uso desmedido dos recursos naturais. Etimologicamente, a palavra sustentável tem origem no latim “sustentare”, que significa sustentar, apoiar e conservar.

A principal diferença entre um projeto convencional e um projeto sustentável está na metodologia. Em um projeto sustentável todas as decisões estão apoiadas em cálculos, simulações e soluções arquitetônicas. Muitas vezes são redesenhadas para atingir as premissas de eficiência do edifício e, estas, definem o Perfil Ambiental do Empreendimento. 

Para as tomadas de decisões, as certificações são ferramentas que auxiliam, através de Sistemas de Gestão e de Referenciais Técnicos, visando atingir um elevado grau de eficiência dos recursos. 

Edifícios altamente eficientes são fundamentais para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Estes estão entre as opções de melhor custo-benefício para diminuir emissões e, também, com altos co-benefícios, como melhorias na saúde e geração de empregos.

No dia a dia da utilização de uma residência verde, o que muda para o morador em termos de manutenção, conforto térmico e acústico, acessibilidade, consumo de energia e de água

Luciani: Os projetos sustentáveis terão sempre soluções e decisões únicas para cada residência. Tal afirmação deve-se ao fato de que cada empreendedor define, em conjunto com seus projetistas e consultores, qual a melhor relação custo-benefício valendo-se do referencial técnico da certificação, durante o processo de tomada de decisão.

Quais são os co-benefícios? 

Luciani: Os co-benefícios estarão de acordo com os parâmetros que definirão os projetos, portanto, serão variáveis. Porém, ainda que com distintos valores podemos afirmar que algumas métricas são comuns aos projetos sustentáveis:

Estudar o local em profundidade e tomar decisões de desenho do edifício, considerando as variantes ambientais encontradas, é fundamental para que o novo empreendimento possa ser um elemento de melhoria na sua relação com o entorno e propiciar um ganho do ambiente interno quando reduz ruídos indesejáveis e mitiga o desconforto advindo da temperatura exterior;

Pensar em projetos flexíveis, os quais possibilitem futuras readequações no uso dos espaços, sejam eles da ordem de uma redução de mobilidade temporária ou até mesmo do envelhecimento dos usuários, visa reduzir demolições e é um bom princípio de economia de recursos naturais e para o empreendedor;

Entender que todos os sistemas precisam de manutenção e, desta forma, organizar de forma clara e objetiva os acessos e rotinas facilita a vida do usuário, controla os consumos, verifica com eficiência eventuais danos nos sistemas e, consequentemente, prolonga a vida útil dos mesmos;

Definir materiais com baixo impacto ambiental e sistemas construtivos que propiciem a redução dos resíduos da construção, tais como a modulação de componentes para diminuir perdas e que permitam a reutilização de materiais. Essas ações possibilitam dimensionar a redução dos resíduos em relação a uma construção convencional, hoje por volta de 40% de perdas no canteiro de obras e trazem, de imediato, uma diminuição no custo da obra além de um enorme ganho ambiental, evitando o envio de resíduos para aterros;

Buscar soluções que potencializem o uso racional de energia ou de energias renováveis, como o aquecimento da água do banho com sistemas de aquecimento solar, utilização de energia fotovoltaica são exemplos de co-benefícios, mitigam a emissão de CO² e reduzem o valor da conta de energia de imediato e a longo prazo;

O uso e a gestão ecológica da água, valendo-se de reservatórios com filtros, na captação das águas das chuvas, possibilitam o reuso da água das chuvas as quais poderão ser desde a irrigação das áreas verdes até o abastecimento das bacias sanitárias. Tais medidas mitigam o impacto da impermeabilização do solo na implantação de cada novo empreendimento e trazem significativas reduções no valor da conta da água paga pelo usuário;

Por fim, e não menos importante, refletir, planejar, organizar e construir buscando contribuir com o uso racional dos recursos naturais é mais que um ganho pessoal é fazer parte de um coletivo que preza pela continuidade da vida no planeta.

Em relação ao projeto, o que o empreendedor identificou de diferente em relação a um projeto tradicional, sem a certificações do AQUA e do PBE (Programa Brasileiro de Etiquetagem) ?

Fernando Berssaneti (empreendedor): Foi um processo de desmistificação e quebra de paradigmas. As pessoas têm o pressuposto que certificações são para grandes empreendimentos, condomínios comerciais ou residenciais com grande número de unidades, que os valores envolvidos são impeditivos para empreendedores residenciais etc. Na prática, não é nada disso. Sim, é um investimento com valores superiores se comparados aos projetos convencionais de uma residência. Porém, há outros ganhos imediatos e também de operação e manutenção da residência que devem ser levados em conta.

Poderia citar quais seriam esses ganhos?

Berssaneti: Primeiro a questão do aproveitamento do terreno. O projeto foi concebido para aproveitar as quedas do terreno, movimentando o mínimo possível de terra, bem como aproveitando a própria força da gravidade. Segundo, houve uma grande preocupação com a posição do terreno, com vistas ao melhor aproveitamento da luz natural e busca de conforto térmico para os cômodos. Dessa forma, haverá menor demanda de iluminação artificial, bem como de refrigeração ou aquecimento artificial, o que implicará em menor demanda de energia.

Outro ponto a ser citado diz respeito ao levantamento detalhado das necessidades dos futuros moradores. Este processo, que muitos consideram perda de tempo, certamente evitará alterações no projeto e minimizará retrabalhos durante a execução da obra, uma vez que as necessidades dos moradores foram levantadas, discutidas e consideradas na etapa do projeto, antes da execução da obra.

Qual o sentimento ou sensação de realizar a construção da primeira casa de médio porte e médio-alto padrão, com certificação AQUA e PBE no Brasil?

Berssaneti: Acredito que a sensação de dever cumprido e certo orgulho de poder concretizar o que defendemos e ensinamos na Universidade de São Paulo, com relação a cidades inteligentes e a sustentabilidade.

  • Entrevistados:

  • Manuel Carlos Reis Martins. Coordenador Executivo –

  • Projetos: AQUA-EPDBrasil – PBEEdifica – Fundação Vanzolini

  • Fernando Tobal Berssaneti. Engenheiro, Mestre e Doutor em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da USP. Professor do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e Membro do Conselho Curador da Fundação Carlos Alberto Vanzolini.

  • Mirtes Luciani é Sócia-Diretora da Luciani & Associados Arquitetura, realiza projetos de arquitetura e urbanismo, notadamente os ligados às questões de Sustentabilidade, os quais tem recebido recorrentemente as maiores pontuações no Brasil, na Certificação AQUA/ Cerway – Fundação Vanzolini. Finalista em quatro edições do Prêmio Saint Gobain de Sustentabilidade. Menção Honrosa no concurso Internacional Pavilhão do Brasil para EXPO MILÃO.3. Colocada no Concurso Nacional para o Pq Guaraciaba/ Santo André /SP. Membro do Grupo de Estudos: Espaço Urbano e Saúde, coordenação: profa. Dra. Ligia Barrozo Vizeu – IEA – Instituto de Pesquisas Avançadas da USP. Ministra Cursos ligados às questões sustentáveis, como convidada, na Fundação Vanzolini. Foi professora na FAUPUCCAMP, durante 28 anos.


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