Em busca do mapeamento de ruídos perfeito

Em busca do mapeamento de ruídos perfeito

José Luís Bento Coelho (foto: ProAcústica/Divulgação)

O engenheiro acústico, professor e consultor português José Luís Bento Coelho é uma personalidade conhecida entre os acústicos brasileiros. Para ele o mapa de ruído constitui um instrumento de gestão de saúde, de gestão urbana mas, também, um instrumento de voto. Bento Coelho já deu pareceres especializados na elaboração da carta de ruídos de Fortaleza, uma das primeiras iniciativas de mapeamento sonoro realizadas pelo Poder público no Brasil. Costuma dizer aos brasileiros que se assustam com o tamanho do desafio que será montar o mapa de ruídos de uma cidade do tamanho de São Paulo: “Não é um bicho de sete cabeças. Em síntese, o mapa vai trabalhar com simulações de cenários em cima de um modelo de base de dados com validações por medições. Bento Coelho dirige a empresa de consultoria Acusticontrol e dá aulas no Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa. Atua como presidente do Centro de Análise e Processamento de Sinais (CAPS) do IST e coordena o Grupo de Acústica e Controle de Ruído do CAPS-IST. Fez doutorado em engenharia acústica na Inglaterra pelo centro de excelência mundial Institute of Sound and Vibration Research da Universidade de Southampton. No último mês de maio, Bento Coelho ministrou um workshop sobre o estado da arte do mapeamento de ruídos para uma plateia de servidores municipais, entre outros.

Nesta entrevista ao ProAcústica News ele reafirma que o mapa de ruído constitui um instrumento de gestão de saúde e de gestão urbana, mas, também, um instrumento de voto.

Na apresentação do Workshop Introdução ao Mapeamento de Ruído, o senhor falou que São Paulo precisa resgatar a “noção de tranquilidade”. A ProAcústica poderia expandir esse conceito para utilizar em alguma iniciativa de conscientização? Como?

Sim, a política de ambiente sonoro na Europa tem duas vertentes: o combate ao ruído e a defesa e promoção de zonas tranquilas. Numa cidade, por exemplo, essas zonas tranquilas – que podem ser jardins, parques e outras áreas urbanas onde os níveis sonoros ainda não são muito elevados – constituem-se como contraponto a outras zonas mais agitadas e mais ruidosas. É este contraponto que constrói o equilíbrio entre espaços de agitação e espaços de tranquilidade, que caracterizam uma cidade. Em São Paulo, o parque do Ibirapuera é um exemplo. Mas há algumas zonas residenciais que também são calmas ou menos ruidosas. Então, é fundamental proteger essas zonas para, ali, o ruído não aumentar. Enfim, constituir zonas de proteção sonora. Essa noção de tranquilidade é importante no sentido de as pessoas não terem de fugir para um subúrbio ou campo para terem tranquilidade. Outra questão relacionada é a tranquilidade nas nossas habitações, que passa pelo cumprimento da norma 15.575 no que concerne ao isolamento sonoro de fachada. A conscientização vai aumentar quando as pessoas forem morar ou visitar apartamentos com bom isolamento sonoro. A partir daí, não vão mais aceitar a má construção em residências, em hotéis ou em escritórios.

Durante a apresentação o senhor sugeriu uma equipe reduzida e coesa para coordenar a execução do mapa? Qual seria o tamanho e composição técnica desta equipe, na sua opinião?

A execução do mapa necessita de equipes de elaboração e de equipes de coordenação. É das leis da física que o aumento de entropia gera ruído (no caso, não acústico), ou seja, grandes equipes geram confusão. O tamanho das equipes tem de ser dimensionado em função das áreas a mapear e da divisão de tarefas. Pequenas equipes são sempre mais fáceis de gerir, não adianta aumentar as equipes com mais gente pois, a partir de certa altura, a curva de rentabilidade inverte-se e começa a diminuir.

O senhor sabe que existe uma discussão acalorada acerca da velocidade dos veículos em São Paulo. Isso complica a política para a redução e controle de ruídos. Como o senhor mesmo disse, “os aviões são os mesmos, mas os carros, não”. Como lidar com essas situações?

Esse problema de eficácia de mobilidade existe em todos os municípios. O problema é, na verdade, sempre o mesmo. Em vários municípios em que trabalhei no início, tivemos discussões complicadas. No entanto, em nenhum caso se gerou conflito e as situações foram sempre resolvidas a contento por todas as partes. A questão, quer na mobilidade quer no ruído, não é tanto da velocidade,  mas da fluidez do trânsito. Se o trânsito for mais fluido é mais eficaz e gera menos ruído. Mas a fluidez não é proporcional à velocidade. Por outro lado, uma pequena diminuição de velocidade pode melhorar a fluidez e diminuir alguns dB no tráfego rodoviário. A gestão do ruído em meio urbano passa por várias estratégias simultâneas em que se ganha apenas alguns dB em cada uma mas, no conjunto, há um benefício interessante.

Gostaria que o senhor aprofundasse os conceitos de mapa como percepção de benefício pela população, como instrumento de gestão de uso e ocupação do solo e como ferramenta de gestão de saúde.

O mapa de ruído é um diagnóstico do estado do ambiente sonoro. Como tal, é uma ferramenta de gestão de ruído, de fontes ruído de tráfego e de equipamentos, de ocupação do solo, os receptores do ruído. Sem os mapas de ruído, os planejadores urbanísticos, de mobilidade, de desenvolvimento urbano vão ignorar a poluição sonora. Porque não conhecem a situação. E podem criar situações de aumento de ruído. Como é o caso frequente. Da mesma forma que o meu médico vai ter dificuldades em me tratar, se não tiver com ele as minhas análises clínicas. Porque não conhece a extensão real e exata do problema. Por outro lado, como o ruído impacta na saúde, então o mapa de ruído é, na verdade, um instrumento de gestão da saúde e de qualidade de vida. A experiência tem mostrado que as populações reconhecem os benefícios desse tipo de medidas por parte dos municípios no sentido em que percebem que as autoridades estão preocupadas com essa qualidade de vida e com o bem estar dos cidadãos.

O mapa do ruído vai diagnosticar fontes como as de trânsito, ferroviário, aéreo e industrial. Como refinar esse entendimento? A população pode confundir mapa de ruído com poluição sonora?

Isso seria como confundir doença com análise clínica. A análise clínica revela o estado de saúde referente a determinados parâmetros cujos valores são comparados com valores de referência. Não é preciso estar doente para se fazer análises, da mesma forma que quando se fazem análises os resultados não indicam uma doença. De forma idêntica, o mapa de ruído é um diagnóstico do estado do ambiente sonoro. Se e onde esse ambiente estiver perturbado, ou seja, com os valores de referência excedidos, haverá poluição sonora. Se não for o caso, não haverá com certeza. O mapa de ruído não se elabora quando há poluição sonora mas para verificar se é o caso ou mesmo se o ambiente é tranquilo.

fonte: ProAcústica

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