O “jeitinho” brasileiro na gestão das empresas: virtude ou contravenção?

O “jeitinho” brasileiro na gestão das empresas: virtude ou contravenção?

Já houve um tempo, no mundo da gestão das empresas brasileiras, em que líderes/ gestores e até acadêmicos afirmavam a muito bem-vinda flexibilidade adaptativa dos gestores brasileiros a contextos variáveis. Reconhecida como uma espécie de competência para tomar decisões criativas em cenários instáveis e de muita insegurança, ficou conhecida também como “jogo de cintura”. Quando se comparavam a seus pares europeus ou a qualquer outros, os gestores brasileiros se auto intitulavam portadores desta competência e que seus pares estrangeiros eram “duros” demais para encontrar saídas diante das dificuldades organizacionais. Esta rigidez era considerada, por aqui, como burra e inibidora da criatividade.

Dizia-se também à época que esta “flexibilidade” era fruto de duas variáveis. A primeira é o conhecido “jeitinho brasileiro”. Uma suposta capacidade que só os brasileiros têm de contornar obstáculos e impedimentos imprevistos da vida cotidiana de uma forma pouco usual, uma manobra que fica entre a lei e a contravenção. Ou como define a antropóloga Livia Barbosa: “o jeitinho é sempre uma forma ‘especial’ de se resolver algum problema ou situação difícil ou proibida; ou uma solução criativa para alguma emergência, seja sob a forma de burla a alguma regra ou norma estabelecida, seja sob a forma de conciliação, esperteza ou habilidade.” Não é difícil deduzir, a partir desta definição, que “jeitinho” demais leva à corrupção. As nossas ações, incluindo as decisões de gestão, diante de imprevistos e da necessidade imperativa de resolvê-los, algumas vezes ultrapassam os limites da lei ou das normas vigentes. Muitas vezes, estas mesmas normas são consideradas como obstáculos que “pedem” ou impõem contorno e desvio. Nosso entendimento das leis e das normas vigentes não é de um mecanismo de controle e de garantia do cumprimento da vontade de uma coletividade (sociedade ou empresa), ao contrário, e estranhamente, entendemos que leis e normas são barreiras às nossas necessidades e ou desejos.

A segunda variável que sustenta a suposta competência da flexibilidade dos gestores brasileiros é a aprendizagem que estes desenvolveram ao lidar com cenários econômicos e políticos de instabilidade frequente. Estes cenários “forçavam” decisões imediatas e criativas. Agindo desta forma com muita frequência gestores brasileiros teriam desenvolvido esta capacidade que mostrava uma forte adaptabilidade, flexibilidade e rapidez decisória. Mais do que isso, quando, novamente, se comparavam a seus pares europeus e de outras partes do mundo capitalista, se diziam muito mais eficazes nas decisões pois estes outros não sabiam o que era instabilidade de cenários e, portanto, eram considerados por aqui como rígidos e até um pouco limitados quando se trata de encontrar soluções “criativas”.

Se pensarmos bem esta conclusão obviamente tem vieses de quem a construiu. Podemos dizer que ao contrário, a presença de normas e leis rígidas torna o trabalho decisório de gestores muito mais difícil e, portanto, quem consegue resultados na vigência e dentro dos marcos regulatórios destas regras é que é de fato um excelente gestor.

Deu no que deu…

Não se pode dizer que o quadro de corrupção que assola o país nestes tempos seja explicado somente a partir destas questões discutidas acima. Temos origens e relações mais profundas com esta questão que ultrapassam os muros das empresas. Veja o comentário de uma pessoa em uma rede social.

“Quando se tem oportunidade de furtar R$ 0,50(cinquenta centavos) tirando fotocópia pessoal na máquina Xerox do trabalho, não se perde a oportunidade. Quando se tem a oportunidade de furtar R$ 25,00(vinte e cinco reais) pegando uma nota fiscal mais alta, na hora do almoço, para a empresa reembolsar, não se perde a oportunidade. Quando se tem a oportunidade de furtar R$ 469,99 da Microsoft baixando um Windows crackeado num site ilegal, não se perde a oportunidade”

Portanto, ser ou não ser ético, respeitar ou não as leis não é uma questão de quantidade de dinheiro envolvido, nem de oportunidade de auferir vantagens, é uma questão de princípios pessoais, morais ou até existenciais como preferem alguns: ser ou não ser ético, neste caso não existem possibilidades intermediárias relativas, ou condicionais.

A novidade, nos tempos atuais, talvez seja o aparecimento, ou melhor, a revelação das fraudes e “maracutaias” nas empresas privadas aqui e em outros países. Local que, na crença ingênua de muitos, era inoculado com este vírus que só se manifestaria em empresas e órgãos estatais. Ledo engano destes ingênuos, parece que a vigilância da legislação interna de compliance e de códigos de ética existentes em várias empresas não são suficientes para evitar fraudes e desvios de conduta.

Portanto, uma provável solução parece não estar no aperfeiçoamento de mecanismos já existentes e conhecidos das empresas, mas sim preparar e educar melhor e sempre seus usuários, sejam eles gestores ou não gestores.

Por Luiz Felipe Cortoni – Professor da Fundação Vanzolini e especialista em Gestão da Mudança e em Comportamento Organizacional.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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