Quem nunca fracassou que levante a mão

Quem nunca fracassou que levante a mão

O sucesso é público, mas o fracasso é privado. O sucesso é venerado, mas o fracasso é vilipendiado. O sucesso é (ainda, infelizmente restrito ao) financeiro, assim como o fracasso. Por tudo isso, empreendedores são os novos modelos de sucesso. São chamados (e gostam disso) de loucos, visionários e resilientes, desde que os seus negócios cresçam exponencialmente. Cresceu muito: micou! Parou de crescer? Micou. Assim, o que vemos, veneramos e vangloriamos são os empreendedores com seus superpoderes, pelo menos enquanto dura a mágica do alto impacto, do sonho grande e do brilho nos olhos.

O que não visualizamos, velamos e valorizamos são os fracassos. E o fracasso é a regra. Mais de 60% dos novos negócios não chegam ao seu quinto ano de existência. O restante sobrevive. Menos de 1%, de fato, se transformam em grandes sucessos. E mesmo esses exemplos de “sucesso” fracassaram, e muito. Mas, como conseguiram “vencer” depois, seus fracassos se tornam “lições de sucesso” que inspiram os que ainda não chegaram “lá”.

Se você ainda não chegou lá, as lições de fracasso são ainda mais importantes para repensar o que está fazendo e avaliar por que está construindo esse caminho – e daí buscar a melhor maneira de conseguir o que quer. Mas as lições do fracasso atuam mais no sentido de minimizar as perdas do que maximizar os ganhos. Por essa razão, serão sempre mais duras, mais incômodas e mais polêmicas. E, dessa forma, serão menos palatáveis, aceitáveis e equilibradas.

O que faria com alguém que rouba a sua ideia de negócio? Processaria! Sim, desde que tivesse a propriedade intelectual sobre o produto. Foi isso o que fez Charles Goodyear, o inventor da borracha vulcanizada. Em 1831, ele viu na borracha a maior oportunidade de negócio que teria na vida. Vislumbrou uma série de aplicações daquele material e começou a estudá-la incansavelmente – a ponto de viver em total pobreza, sendo preso constantemente por não ter condições de pagar suas dívidas. Mas a borracha tinha graves limitações. Derretia no calor do verão e quebrava no frio do inverno.

Goodyear fez diversos experimentos até que, em 1839, ao acidentalmente misturar enxofre com a borracha, descobriu a fórmula do material atualmente conhecido como borracha vulcanizada, que conseguia suportar muito bem as altas e baixas temperaturas. Mas Goodyear só conseguiu a patente da sua descoberta em 1944. Quando foi para a Europa a fim de registrar a patente, descobriu que o inglês Thomas Hancock já tinha analisado a sua fórmula e a registrado oito semanas antes. Com razão, Goodyear ficou furioso. Ele passaria os 16 anos restantes da sua vida processando Hancock e vários outros que piratearam a sua criação, sem nunca ter conseguido ganhar algo significativo. Uma das passagens mais duras da sua pobreza foi quando um dos seus filhos faleceu e Goodyear não tinha dinheiro sequer para pagar o caixão e o enterro. E agora, novamente a pergunta: o que faria com alguém que rouba a sua ideia de negócio?

O que faria para salvar a sua empresa da falência? John DeLorean foi um dos executivos mais bem-sucedidos da indústria automobilística até 1973, quando decidiu abandonar seu cargo de vice-presidente na General Motors para fundar a sua própria empresa, que produziria o carro do futuro e que causaria desejo em todos que o vissem. Todos sabem que ele alcançou o sucesso, pois o seu carro é o DMC-12, o mesmo que  Doc Brown e Marty McFly usam na trilogia “De Volta para o Futuro”. O que as pessoas desconhecem é o que DeLorean fez para salvar o seu negócio da falência. O carro deveria chegar ao mercado em 1974 ou 1975. Mas o primeiro protótipo só ficou pronto em 1976, e a produção só começou em 1981. O carro se chamava DMC-12 (DeLorean Motor Company) porque deveria custar US$ 12 mil, mas depois dos atrasos e desafios na produção, o preço final foi um pouco mais que o dobro do previsto. Além disso, o DMC-12 chegou ao mercado com sérios problemas de motor, suspensão e dirigibilidade. Tinha sido pensado para um motorista que tivesse quase 2 metros de altura. Em todos os aspectos, a empresa fundada por John DeLorean foi um desastre. No início, aproveitando-se do seu prestígio, o empreendedor conseguiu atrair diversos investidores, incluindo até o governo da Irlanda, que investiu 100 milhões de libras no projeto. Mas os constantes atrasos forçaram DeLorean a buscar recursos em bancos, perdendo parte do controle da empresa que fundara. O golpe final no sonho de salvar a empresa aconteceu em outubro de 1982, quando DeLorean foi filmado em um hotel em Los Angeles tentando negociar 27 quilos de cocaína. Poucos dias depois, sua empresa faliu. Ele foi inocentado a tempo de assistir, três anos depois, à estreia do filme que transformou seu sonho em uma máquina do tempo. E teve tempo de refletir sobre o que (não) faria para salvar a sua empresa da falência…

O que faria quando percebe que alguém faz muito melhor o que você faz? O Vale do Silício não produz apenas startups de tecnologia. Estudando na Universidade Stanford, Roy Raymond não se sentiu bem ao ir a uma loja de departamentos para comprar uma lingerie para sua esposa. Não havia produtos atraentes na sua opinião e as pessoas ficavam olhando para ele de forma estranha. Daí teve uma ideia inusitada: criar um negócio de lingerie em que os homens se sentissem bem. Pegou emprestados US$ 80 mil de bancos e parentes e abriu a primeira loja da Victoria’s Secret em 1977, no mesmo shopping que tinha visitado anteriormente. Já no primeiro ano, faturou US$ 500 mil. Começou a vender por catálogo e abriu mais três lojas. Em 1982, já tinha seis lojas e as vendas anuais alcançavam US$ 6 milhões, mas a empresa dava prejuízo. Por isso, Raymond aceitou a proposta de vender a Victoria’s Secret por US$ 1 milhão para Leslie Wexner. Sob a direção de Wexner, a empresa cresceu exponencialmente até atingir a marca de US$ 1 bilhão em vendas, oito anos depois. Raymond nunca assimilou bem o sucesso posterior da sua criação, entrando em longo processo depressivo, agravado pela falência dos dois outros negócio que tentou fundar. Isso afetou seu casamento, e sua esposa, que o tinha inspirado a criar a Victoria’s Secret, pediu o divórcio em 1993. Nesse mesmo ano, aos 46 anos, Raymond se suicidou, atirando-se da ponte Golden Gate em São Francisco…

Todos esses fracassos tiveram fins trágicos. Há muito o que aprender com eles, especialmente sobre o que não fazer. Mas outros empreendedores, que também fracassaram aos olhos do mundo, conviveram razoavelmente bem com isto. Isaac Singer até tinha uma das patentes da máquina de costura, mas, diante da proliferação de soluções similares (com ou sem patente), se uniu ao advogado Edward Clark e a dezenas de outros que infringiam ou não os direitos legais para criar um sistema em que todos ganhavam um pouco, sem que precisassem brigar entre si. Dean Kamen tinha o sonho de revolucionar o transporte de pessoas ao inventar o Segway, considerado por especialistas algo mais revolucionário que a internet. Mas o Segway foi um fracasso de desempenho: o veículo em que o usuário se locomove de pé sobre duas rodas é utilizado atualmente apenas por vigilantes em shopping centers. Mas Kamen continua sua missão em desenvolver soluções para tornar o mundo melhor, orgulhando-se de ser o “pai do Segway”. Por fim, muitos falam que Gary Kildall deveria ser o verdadeiro Bill Gates, já que foi a sua empresa (Digital Research Inc.) que desenvolveu o sistema operacional comprado por Gates e depois comercializado para a IBM, dando impulso ao que viria a se tornar a Microsoft. Esse fato prejudicou muito a vida de Kildall, mas não o impediu de se tornar milionário e praticar os passatempos que mais gostava, como pilotar aviões, carros de corrida, barcos de alta velocidade e motos, além de prestar assistência às crianças com Aids, sua principal causa voluntária.

Todos fomos, somos e seremos fracassados em algum momento da vida. Mas é preciso pedir ajuda quando este fracasso se transformar em depressão, e essa depressão se transformar em loucura, cegueira ou burrice.

Por Marcelo Nakagawa

fonte: Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios

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Sobre o autor

Marcelo Nakagawa é Professor na Fundação Vanzolini. É membro do conselho da Anjos do Brasil e da Artemísia Negócios Sociais. É colunista da revista Pequenas Empresas, Grandes Negócios e do Estadão PME, além de ser colaborador da Exame PME. É consultor de empreendedorismo no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e Bradesco. É autor dos livros Empreendedorismo: Elabore seu plano de negócio e faça diferença (Ed. Senac, 2013) e Plano de Negócio: Teoria Geral (Ed. Manole, 2011) e co-autor de Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil (Ed. Evora, 2012), Sustentabilidade & Produção (Ed. Atlas, 2011) e Engenharia Econômica e Finanças (Ed. Elsevier, 2009) . É doutor em Engenharia de Produção (POLI-USP), mestre em Administração e Planejamento (PUC-SP) e graduado em Administração de Empresas (FEA-USP). Na Fundação Vanzolini, ministra aulas nos Cursos de Capacitação em Gestão da Qualidade e de Processos e o Liderança e Gestão de Pessoas.

*Os artigos assinados não necessariamente expressam a visão da Fundação Vanzolini.
As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor.

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