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Prof. João Amato fala sobre a profissionalização da gestão das entidades do terceiro setor

Por: Caroline Martin | Fonte: Revista O Papel

Prof. João Amato

Amato: “As entidades do terceiro setor atuam, principalmente, como ferramentas de combate à grande chaga social, traduzida pela miséria e pela pobreza” (Foto: Reinaldo Marques – Studio3x)

Ao completar 50 anos, a ABTCP, uma OSCIP cujo principal objetivo é fortalecer o viés técnico do setor de celulose e papel e disseminar o conhecimento entre os diferente atores da indústria, reforça a importante contribuição que entidades do terceiro setor oferecem aos setores privado e público. As cinco décadas de atuação também provam que os esforços e trabalhos realizados vêm sendo empregados de maneira efetiva, superando as dificuldades acarretadas pelos períodos de turbulências econômicas.

Mas se por um lado a atual retração traz impactos diversos às atividades dos inúmeros setores que compõem a economia brasileira, incluindo as entidades do terceiro setor, por outro, apresenta uma série de oportunidades. “Há muito espaço para o crescimento do terceiro setor no Brasil, que ainda é relativamente pequeno se comparado à realidade dos países mais desenvolvidos. Dadas as enormes carências da sociedade brasileira, o terceiro setor deverá se constituir em uma das principais vias de atendimento às demandas sociais”, aponta o professor João Amato Neto, presidente da Fundação Vanzolini.

Na entrevista abaixo, Amato faz um panorama sobre a atuação dessas entidades, discorre sobre os principais desafios que ainda aplacam o setor e sugere formas de avançar nestes quesitos e desfrutar os benefícios que o terceiro setor é capaz de promover.

O Papel – Como você avalia o espaço e a participação das entidades do terceiro setor na sociedade brasileira?

João Amato Neto, professor e presidente da Fundação Vanzolini – No Brasil, a presença do terceiro setor na economia ainda não é tão marcante como nos Estados Unidos ou em alguns países europeus, que contam com várias instituições e uma vasta rede de voluntários. Segundo dados de 2015 do IBGE, a participação oficial do setor na economia brasileira corresponde a 1,4% na formação do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB), o que representa um montante de aproximadamente R$ 32 bilhões. Tanto nos Estados Unidos quanto nos países europeus, o terceiro setor é maior por uma questão natural de desenvolvimento e do processo civilizatório. São países mais ricos que, em função da sua tradição, desenvolveram uma consciência social diferenciada. Essa é a principal diferença que acarreta esses desníveis de evolução entre o terceiro setor brasileiro e destes outros países. Fazendo uma retomada histórica, podemos perceber que o período de maior crescimento deste setor no Brasil ocorreu entre 1996 e 2002. O número de fundações privadas e associações sem fins lucrativos cresceu 157% no período, passando de 105 mil para 276 mil. No mesmo período, o número de pessoas ocupadas no setor passou de 1 milhão para 1,5 milhão de trabalhadores, registrando um aumento de 50%. Na minha avaliação, esse salto deu-se pelo fato de termos vivido um período de certa estabilidade econômica, em que os projetos sociais, principalmente, liderados pelo Estado, começaram a se desenvolver. Os governos que representavam o Estado brasileiro na época perceberam que o tamanho da dívida social era tão grande que eles não dariam conta de resolver sozinhos. Seguindo o exemplo dos países desenvolvidos, então, passaram a criar estímulos para o crescimento do terceiro setor, incluindo Organizações Não Governamentais (ONG), Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), fundações e outras entidades que compõem esse setor. Além disso, a própria figura das ONGs começou a ganhar predominância no Brasil.

O Papel – De que forma o País poderia se beneficiar com o crescimento dessas entidades? Qual é de fato o papel e a contribuição delas?

Amato – Acredito que é um papel de fundamental importância, dadas as carências sociais que ainda temos no País, incluindo áreas como saúde, educação e muitas outras. As entidades do terceiro setor atuam, principalmente, como ferramentas de combate à grande chaga social, traduzida pela miséria e pela pobreza. Esse combate é feito de diferentes formas, considerando que tais males também se manifestam de diversas maneiras em muitos setores. A formação profissional e capacitação técnica destacam-se entre esses exemplos de carências ainda vistas no Brasil. Apesar de termos acompanhado grandes avanços em regiões como Sul e Sudeste, outras regiões do País ainda seguem com muitas deficiências em escolas técnicas. As atividades do terceiro setor podem agir de maneira complementar à atuação do Estado, desde os municípios até o governo central, e à de outras instituições já bem estruturadas, como Sesi-Senai, ainda tomando a área de educação como exemplo. Outro ponto a se destacar é o das cooperativas, sejam das cooperativas de trabalho, de produção, agrícolas ou de crédito. O cooperativismo também é uma via do terceiro setor que pode se desenvolver muito no Brasil. Alguns setores da economia são fundamentalmente dependentes das cooperativas, caso do setor agrícola, mas no setor industrial ainda é incipiente a experiência do cooperativismo, comparativamente a outros países do mundo. Na Itália, há regiões, como a central, cujas economias dependem fundamentalmente das cooperativas. Certamente é um braço do terceiro setor com potencial a se expandir no Brasil.

O Papel – Qual balanço você faz das entidades brasileiras do terceiro setor?

Amato – Penso que ainda há muito o que se fazer em termos de maior profissionalização da gestão das entidades do terceiro setor, tanto em termos da gestão de suas próprias operações, quanto no que se refere à gestão financeira e do relacionamento com as demais entidades do segundo e primeiro setores – vale reforçar: empresas privadas e governos em todos os níveis. A interação com o segundo setor tem uma razão bastante evidente: conhecer as especificidades dos processos industriais e dos produtos que compõem o portfólio das empresas de determinado setor é o caminho para que a entidade do terceiro setor se envolva verdadeiramente com o segmento industrial e seja útil a ele. Em relação à interação com o primeiro setor, essa necessidade vem da busca pelo entendimento de estímulos governamentais que possam beneficiar tanto a indústria quanto a própria entidade. Muitas vezes, esse diálogo é o responsável por viabilizar a realização de muitas atividades das entidades do terceiro setor, a partir da correta utilização de incentivos fiscais e de outros mecanismos.

O Papel – Diante dos desafios pertinentes à gestão de entidades do terceiro setor, quais são os caminhos estratégicos para entidades já consolidadas driblá-los e fortalecer a sustentabilidade destes negócios?

Amato – Acredito que os maiores desafios referem-se à maior profissionalização na condução das várias operações que envolvem as diversas entidades que compõem o terceiro setor, principalmente no que se refere à gestão financeira e à gestão de projetos. Além disso, creio que ainda permanece o desafio de maior transparência na condução destas entidades. Partindo do viés de uma entidade que tem como enfoque a educação, penso que o melhor caminho estratégico seria desenvolver ações para maior capacitação gerencial dos seus gestores e líderes. Uma experiência bem-sucedida desenvolvida há alguns anos pela Fundação Vanzolini foi a realização de um curso de capacitação chamado Engenharia Comunitária, cujo objetivo central era capacitar líderes comunitários de regiões da cidade de São Paulo. Esse curso foi projetado com uma linguagem adequada para esses líderes comunitários, adaptando o conteúdo às necessidades deste público-alvo. Gestão de projetos, gestão econômico-financeira e gestão do tempo foram alguns dos temas abordados e descritos neste curso, para que os gestores pudessem entender todas as nuances de gestão de processos de operação e administrativos. É só um exemplo de como o investimento em profissionalização de líderes pode ser extremamente efetivo para a sustentabilidade dos negócios de entidades do terceiro setor, fazendo com que os resultados financeiros sejam positivos e que a operação se mantenha em um fluxo contínuo.

O Papel – O cenário atual exige novas soluções por parte destas entidades? O fortalecimento do viés econômico, por exemplo, torna-se ainda mais indispensável?

Amato – Os reflexos do cenário atual de retração da atividade econômica podem variar conforme a área de atuação de cada entidade. Por outro lado, em momentos de crise como o que estamos vivendo, surgem oportunidades de reposicionamento dessas entidades. Muitas empresas podem identificar nas entidades do terceiro setor a capacidade de desenvolver atividades que não têm sido capazes de dedicar atenção, enxergando uma possibilidade de parceria. Nesse grande movimento de responsabilidade social corporativa, por exemplo, muitas empresas ainda não dispõem de profissionais que possam encabeçar essa função da forma ideal. O desenvolvimento de projetos sociais é o core de muitas entidades do terceiro setor. A oportunidade se revela justamente nesse processo de terceirização de determinadas atividades de empresas para entidades do terceiro setor. Para isso, contudo, o terceiro setor deve estar preparado para atender às demandas do segundo setor.

O Papel – O que você vislumbra sobre o futuro dessas entidades no Brasil?

Amato – Creio que ainda há muito espaço para o crescimento do terceiro setor no Brasil, que, como já citado anteriormente, ainda é relativamente pequeno se comparado à realidade dos países mais desenvolvidos. Por outro lado, dadas as enormes carências da sociedade brasileira, o terceiro setor deverá se constituir em uma das principais vias de atendimento às demandas sociais, principalmente das camadas mais necessitadas da sociedade e de regiões onde o Estado não possui condições e competências para realizar tal atendimento. Há algumas frentes muito interessantes para a atuação de entidades do terceiro setor: a primeira delas é a grande área da saúde, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento de ações preventivas, que, na maioria dos casos, relacionam-se também com uma forte ação educativa; em segundo lugar, os projetos de caráter socioambiental, incluindo aí os chamados investimentos de impacto; em terceiro, as iniciativas e os projetos da chamada economia/indústria criativa, que envolve atividades culturais dos mais diversos segmentos, como artes plásticas, literatura, música, projetos audiovisuais e produção cinematográfica, e, por fim, os projetos da área de ajuda humanitária nas regiões de maior vulnerabilidade.


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