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Professor da Fundação Vanzolini fala sobre o mercado de Tecnologia da Informação

O interesse de investidores estrangeiros em empresas brasileiras de tecnologia da informação (TI) continua em alta. Em 2013 o setor movimentou US$ 61,6 bilhões (R$ 136 bilhões) no Brasil, 15,4% a mais que no ano anterior, conforme o IDC.

Para 2014 a estimativa é de um crescimento de 12%. Dos 99 negócios de TI fechados no ano passado, 40% envolveram compradores de outros países, segundo pesquisa de fusões e aquisições da KPMG. Entre janeiro e março deste ano ocorreram 27 transações no segmento, das quais 13 com entrada de capital externo. Há seis anos a TI ocupa o primeiro lugar no ranking setorial da pesquisa.

Para Luis Motta, sócio da KPMG, os empreendimentos de base tecnológica se tornaram negócios atrativos por causa do aumento do poder de compra das classes C e D. Áreas como varejo, educação e saúde estão entre as que mais crescem. Ele lembra que a pesquisa tem números conservadores, pois diversas transações não são divulgadas pelos envolvidos. “Esses indicadores demonstram confiança no país”, avalia o professor Mauro Spinola, presidente da diretoria executiva da Fundação Vanzolini: “Negócios em TI correspondem a tendências de inovação e à maior capacidade de fazer mais com menos recursos no futuro.”

O Polo Tecnológico de Florianópolis, cujas 600 empresas faturam R$ 1 bilhão por ano, está se internacionalizando com apoio do capital externo. No início de maio, o grupo sueco Hexagon, líder mundial em sistemas de metrologia, comprou a Arvus para transformá-la no seu braço brasileiro em agricultura de precisão.

Em janeiro, a Alstom Grid, divisão do grupo francês Alstom, adquiriu a Reason Tecnologia, que atua com sistemas elétricos e industriais. Dois meses antes, o fundo americano Riverwood Capital anunciou aporte de R$ 50 milhões na Pixeon, especializada em saúde. Uma das primeiras do polo a receber investimento internacional foi a Suntech, do ramo de segurança, que em 2011 foi comprada pela corporação israelense Verint.

Essas quatro empresas catarinenses têm características em comum que as qualificaram a receber investimentos externos, a começar pelo perfil de vários dos seus empreendedores e profissionais, oriundos de bons cursos tecnológicos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A trajetória das startups incluiu um período de maturação em incubadoras empresariais, onde puderam aperfeiçoar protótipos e métodos de gestão. Outra semelhança entre elas é o perfil de competitividade baseada em inovação: seus produtos e serviços, já aprovados pelo mercado, têm clientela em todas as regiões do país.

A decisão de abrir mão do controle do negócio não é fácil e requer avaliação criteriosa. “Entendemos que vender a empresa era o melhor movimento do ponto de vista técnico e vai trazer mais oportunidades para quem trabalha aqui”, afirma Gustavo Raposo, um dos sócios da Arvus, fabricante de equipamentos eletrônicos e software para os mercados de grãos, sucroenergético e florestal.

Com 85 empregados, a Arvus faturou R$ 12 milhões em 2013 e vem dobrando de tamanho a cada ano. Raposo explica que a venda foi definida em função do contexto de consolidação mundial da agricultura de precisão: “Existem vinte e poucas empresas do ramo e em dez anos devem restar somente quatro ou cinco grandes”.

O grupo sueco comprou as participações dos sócios, que continuam como executivos, e também do primeiro investidor, o fundo de capital semente Criatec.

“Com essa aquisição, a Hexagon poderá expandir seu portfólio de soluções para agricultura, uma vez que a Arvus nos proporcionará os canais necessários para fazê-lo através dos seus equipamentos”, diz o presidente da Hexagon Solutions, Claudio Simão. A estratégia da corporação é aumentar a presença no Brasil e em outros países emergentes, que tendem a ampliar o uso das tecnologias voltadas para a agricultura. Em dez anos, o grupo sueco adquiriu 70 empresas, três delas nos últimos oito meses. Seu faturamento em 2013 foi de € 2,4 bilhões (R$ 7,3 bilhões).

A compra da Reason Tecnologia pela francesa Alstom foi concretizada depois de um ano de negociação. Fundada em 1991, a empresa catarinense tem como principal equipamento um registrador de perturbação. “É o equivalente a uma caixa preta de avião, que registra o que ocorreu antes, durante e depois de um blecaute elétrico”, explica o fundador, Guilherme Bernard.

A Reason conquistou 90% do mercado brasileiro de automação energética e, há quatro anos, abriu escritórios nos EUA e na Alemanha. No entanto, enfrentava barreiras para crescer. “No México, em Israel e no Egito, tínhamos dificuldade para participar de licitações internacionais, pela falta de tratados de livre comércio com o Brasil”, conta.

Como o grupo francês detém 15% do mercado mundial e pretende ampliar as atividades, a aquisição se mostrou um bom negócio para todos os envolvidos. “Nós nos tornamos o centro mundial de excelência da Alstom Grid na área de medição”, diz Bernard.

Ele destaca que o negócio também foi bom para os funcionários, pois terão oportunidades de crescimento em outras unidades com as quais trabalham, no Reino Unido, na França e na Índia. Motivados pela novidade, muitos deles estão estudando idiomas estrangeiros. “Nossa expectativa é aumentar o faturamento de cinco a sete vezes nos próximos três a cinco anos”, comemora Bernard.

O vice-presidente do setor grid da Alstom na América Latina, Sergio Gomes, afirma que a transação irá fortalecer a presença do grupo no mercado de automação de subestações. Para ele, um dos principais valores agregados é a presença local: “Ganhamos um forte centro de pesquisa e desenvolvimento com uma rede de parceiros no Brasil, particularmente em Florianópolis”. Entre 1º de abril de 2013 e 31 de março de 2014, a Alstom registrou globalmente € 21,5 bilhões (R$ 64,9 bilhões) em pedidos. Suas vendas, de € 20,3 bilhões tiveram crescimento anual de 4%.

 

Fonte: Valor Econômico – Empresas