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Casas inteligentes são uma tendência irreversível, afirmam especialistas

Demanda por residências equipadas para facilitar a rotina dos moradores cresce, enquanto o preço dos recursos cai anualmente

Mais um longo e cansativo expediente chega ao fim. Ainda no estacionamento do trabalho, a pessoa saca seu celular do bolso e programa a temperatura da água que encherá sua banheira. Ao entrar em casa, ela não precisa se preocupar em encontrar as chaves, pois a porta se abre instantaneamente, graças ao sistema de reconhecimento facial. Sensores de movimento e de iluminação acendem as luzes de acordo com o caminho feito. Durante o trajeto até o tão aguardado banho, os demais sensores espalhados por toda a residência medem a temperatura corporal e os batimentos cardíacos do morador: se algo não está em ordem, lembretes sonoros avisam que talvez seja uma boa ideia marcar uma consulta médica para breve.

Esse jeito Jetsons de viver não está tão distante assim da realidade. As chamadas smart-homes, ou casas inteligentes, em português, já fazem parte dos planos de profissionais da computação e, claro, da arquitetura. Diane Cook, professora de engenharia elétrica e de ciência da computação da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, publicou recentemente na revista científica Science um artigo em que reforça o que já é tendência em praticamente todas as inovações científicas atuais: o objetivo da tecnologia é antecipar necessidades.

Não é preciso recorrer a exemplos que parecem retirados de episódios de desenhos animados futuristas. Há, hoje, uma série de pequenas inovações que já deixam os lares mais inteligentes. A possibilidade de programar o DVD para gravar atrações na televisão é um exemplo. E os consumidores já estão começando a se interessar pela automatização residencial. De acordo com um estudo feito este ano pela Motorola Mobility, 78% dos brasileiros questionados se mostraram interessados pelo tema. O número é maior que a média do restante do planeta, que foi de 66%. O estudo foi realizado em escala mundial e analisou 9 mil pessoas em 16 países.

O interesse e a curiosidade acerca das novidades estão crescendo, porém nem todos estão completamente convencidos de que equipar a casa com aparatos tecnológicos é uma boa ideia. Ainda de acordo com o levantamento, em torno de 37% dos consumidores afirmaram que precisam de mais provas de que o custo-benefício das smarthomes vale a pena (muito por conta dos altos preços atribuídos a elas). O conforto é o principal chamativo, mas esse não é o único aspecto levado em consideração na hora de pensar na criação de agentes inteligentes — ou todo tipo de inteligência artificial, como sensores, softwares e demais ferramentas capazes de transformar a casa em um verdadeiro laboratório tecnológico. “Eles (os agentes inteligentes) tendem a realizar tarefas que melhoram a saúde, a eficiência energética e até mesmo a performance nas redes sociais”, enumera a pesquisadora Diane Cook.

Embora a habilidade de controlar diferentes “mecanismos domésticos” não seja, exatamente, uma novidade, ela diz que, agora, há um objetivo maior por trás de tudo isso. “Ter dispositivos que entendem o que acontece dentro da residência e o que é preciso ser feito é o que diferencia uma casa comum de uma ‘casa inteligente’”, frisa. Em outras palavras: com as informações sobre os hábitos dos moradores, a smarthome é capaz de atendê-los melhor. “A casa pode, por exemplo, lembrar o residente de fazer uma tarefa e certificar-se de que ela foi feita”, completa a pesquisadora. Algo como um smartphone grande o suficiente para abrigar a família inteira.

Vantagens
Uma casa inteligente deve ter como objetivo principal fazer com que seus habitantes tenham uma vida independente. Para quem tem uma saúde em bom estado, a afirmação pode parecer estranha, mas as smarthomes podem facilitar a rotina de quem tem limitações físicas. “A casa pode dar informações aos cuidadores de idosos ou de doentes sobre a alimentação, a movimentação e o tempo que eles estão dormindo, por exemplo”, diz Cook. Pais de crianças pequenas também podem usar a tecnologia para saber se elas estão dentro de casa, se estão mexendo em objetos perigosos na cozinha ou se levantaram no meio da noite.

Para o bolso, uma casa equipada também é vantajosa, uma vez que o usuário pode programar aparelhos que consomem muita energia para se desligarem automaticamente. Marcelo Pessoa, diretor de tecnologia da informação (TI) da Fundação Vanzolini, frisa que, apesar de todo o conforto que as inovações tecnológicas proporcionam, o que as pessoas querem mesmo é segurança. “O sistema de câmeras foi o que mais evoluiu”, destaca. “Desde o controle do portão até os alarmes, tudo pode ser monitorado pela internet, de qualquer lugar.”

A iluminação vem em segundo lugar na lista de preferências, segundo o especialista em TI. Assim como acontece no teatro, a tendência é que as novas casas apresentem luzes controladas como no palco, que iluminam só o que interessa (no caso, a área em que os moradores estão). A manutenção preventiva também faz parte do vasto leque de habilidades de uma smarthome. “Um aquecedor que para de funcionar quando a pessoa está ensaboada é um desconforto que não existiria”, exemplifica Pessoa. “A automação calcula a vida útil de aparelhos como esse e avisa o usuário quando é preciso fazer a troca.”

José Roberto Muratori, diretor executivo da Associação Brasileira de Automação Residencial (Aureside), diz que a “computadorização” de residências ainda é um mercado incipiente, mas que cresce a cada dia. “Tanto as construtoras estão diferenciando seus produtos quanto o consumidor final está tendo mais acesso a informação e preços mais acessíveis”, justifica o também engenheiro e diretor da Marbie, empresa que realiza projetos e desenvolve soluções de tecnologia voltadas para o mercado de automação residencial e predial. Segundo Muratori, os mais jovens são os principais agentes impulsionadores dessa nova forma de morar. Só na empresa em que trabalha, ele estima que a demanda por projetos como esse tem crescido de 30% a 40% ao ano. “O crescimento desse tipo de mercado está em torno de 35%, e os custos estão caindo pela metade, todos os anos”, completa.

Família do futuro
Na desenho animado Os Jetsons, criado pelo estúdio de animação norte-americano Hanna Barbera em 1962, uma família vivia no longínquo ano de 2062. Na época, já se imaginava que o futuro seria automatizado: robôs, hologramas e até mesmo alienígenas fariam parte da rotina da família. A maneira de comer seria bem diferente também: no lugar de sanduíches, pílulas com o sabor dos alimentos.


Níveis de interação

Sistemas autônomos
Permitem ligar ou desligar subsistemas ou dispositivos específicos de acordo com um ajuste predefinido. Porém, nesse esquema, cada dispositivo ou subsistema é tratado independentemente, sem que dois dispositivos tenham relação um com o outro.

Integração de sistemas
Situação em que há múltiplos subsistemas integrados a um único controlador. A limitação desse sistema está no fato de que cada subsistema deve ainda funcionar unicamente na forma pretendida pelo fabricante. Permite ampla gama de benefícios aos usuários e garante a máxima eficiência no aproveitamento dos recursos utilizados

Residência inteligente
O produto manufaturado pode ser personalizado para atender as necessidades do proprietário. O integrador de sistemas em conjunto com o proprietário delineará instruções específicas para modificar o uso do produto. Assim, o sistema torna-se um gerenciador em vez de apenas um controlador remoto. Os sistemas residenciais inteligentes dependem de comunicação de mão dupla e feedback de status entre todos os subsistemas para um desempenho acurado

Fonte: Gláucia Chaves/ Correio Braziliense